30.10.08

Obama mais perto da vitória

A análise da Associated Press aponta vitória de Obama, com mais de 270 votos no colégio eleitoral (ou seja, tendo vencido o número de estados suficiente para atingir essa marca). O candidato democrata manteve os estados que John Kerry ganhou em 2004, e conquistou espaço em lugares que votam no Partido Republicano desde os anos 80, como Nevada, graças a uma campanha de base, ou "grassroots". Como o voto é facultativo nos EUA, parte do trabalho da campanha é eletrizar o eleitor para ir à urna.

Nos últimos dias, contudo, as pesquisas de opinião apontam recuperação de McCain entre os eleitores brancos sem nível superior. O preço da gasolina baixou de US$ 4 o galão durante o auge do verão para US$ 2,50, amolecendo a fúria de muitos motoristas de utilitários esportivos. Mas a economia está em frangalhos e o país luta duas guerras - a do Iraque, que evoluiu positivamente no último ano, e a do Afeganistão, que piorou e já ameaça se expandir para o Paquistão. Os militares americanos estão bombardeando o norte do país e a Síria com aviões teleguiados, leves e invisíveis ao radar. Pesquisa sobre o Vale Korengal, teatro das batalhas mais sangretas do conflito afegão.

No New York Times, Mark Leibovich acompanhou 11 comícios dos dois candidatos e de seus vices. Os mais cheios são os de Obama, seguidos dos de Sarah Palin (vice republicana), McCain e Biden (parceiro de Barack no "ticket").

“A lot of people on the other side just want free money,” said Susan Emrich, at a McCain-Palin rally in Hershey on Tuesday. A real-estate agent, she wears a T-shirt that says, “I’m voting for Sarah Palin and that White Haired Dude.” Ms. Emrich would like to attend another rally later that day in nearby Shippensburg, but can’t. “I have to work,” she explains. “I’m a Republican.”

There is an edge at Obama rallies, but it is less of frustration, more of fear. Those supporters worry that the election may be stolen from them, that race could skew against an African-American candidate, or that something unspeakable might befall Mr. Obama — but they will speak it nonetheless, in hushed tones.

Vou traduzir aqui o que dizia a camisa da corretora imobiliária citada acima, a Susan Emrich, de Hershey, Pensilvânia.


"Meu voto é na Sarah Palin
e no Cara da Cabeça Branca"
Aí me lembrei da mulher que vendia cerveja barata em seu apartamento no conjunto habitacional Parque São Brás em 2000 e tinha uma imagem em papelão, tamanho natural, do Antônio Carlos.

ANL

29.10.08

Achados e perdidos

29/10/2008 - 03h26
Mulher encontra maconha em banco de ônibus em SP
da Agência Folha

Uma passageira encontrou no banco de um ônibus um pacote com mais de meio quilo de maconha na noite desta terça-feira (28). Ninguém foi preso.

A droga estava no ônibus 5106, que faz a linha Terminal Princesa Isabel-Jardim Selma, zona sul de São Paulo.

Segundo informações da Polícia Civil, por volta das 21h30, a passageira encontrou a caixa ao sentar e entregou ao cobrador.

Desconfiado, ele e o motorista pararam ao ver uma viatura da polícia próximo à avenida Armando de Arruda Pereira. Além do meio quilo de maconha, havia dois invólucros de cocaína.

Caso registrado no 97º DP (Americanópolis).

"A hibernation is a covert preparation for a more overt action."

Ralph Ellison, "Invisible Man"

27.10.08

Fascist America, in 10 easy steps

From Hitler to Pinochet and beyond, history shows there are certain steps that any would-be dictator must take to destroy constitutional freedoms. And, argues Naomi Wolf, George Bush and his administration seem to be taking them all

25.10.08

Culture Wars

O WSJ publicou um interessante artigo na edição de hoje sobre os planos fiscais dos candidatos à presidência americana. Obama quer baixar os impostos, aumentando o número de cheques ao estilo "bolsa-família" para os mais pobres, enquanto McCain quer cortar os impostos para todos - inclusive para os ricos, que já pagam 35% e continuarão assim - Barack quer aumentar para 45%.

Então conversei ontem com meu avô e ele disse que está preocupado com a vitória de Obama. Ele é um velhinho de 90 anos, filho de imigrantes italianos, ex-empresário, republicano de ouvir a Fox News religiosamente. Mora num subúrbio de Knoxville, Tennessee. Eu lhe disse que o Obama não era isso tudo andavam pintando por aí, que seria muito mais pragmático do que ele pensa. Mas fiquei quieto quanto à socialização porque é isso mesmo. Se a desigualdade está aumentando, por que não redistribuir a parada?

Acho que talvez ele ainda esteja preso às guerras culturais dos anos 60, quando o país foi à loucura com o extremismo e os republicanos se aproveitaram do choque dos americanos moderados com o verão de 68 e inventaram que o sujeito médio de cidade pequena é o "verdadeiro patriota" e nós, esquerdistas de Nova York que tomam vinho importado e não comem na McDonald's, somos "a elite comunista". Parabéns Nixon, Karl Rove e Lee Atwater. Parabéns Reagan. Deu certo até a casa cair.

Mas rimos muitos com a situação do Chávez agora que o petróleo caiu de US$ 145 para US$ 65 o barril. A Venezuela anda com dificuldades para manter a luz acessa, então acho que o sonho neobolivariano da petroditadura socialista vai tremer nas bases - veja só, bastou o óleo cair pra a Argentina ter que confiscar os fundos de aposentadoria para cobrir o buracão que Chavecito não vai mais financiar. Os brazucas pelo menos ainda têm a pré-sal.

ANL

22.10.08

Death by lack of empathy

I've always been unable to cry, but now the tears flood my shirt. Office workers stare in atonishment at my sickly face. The coworkers don't know what to say, they seem baffled and anoyed at the same time. The tears become stronger, blinding streams of fluid that cause panic among the technocrats. The water flows with more and more vigour, it's staining the carpet, causing short circuits in the company machines. There's a salty river taking over the cubicles. People start to run, the fire department is called. In the end, the water dries, the electronic fires are contained, the workers start to return cautiosly. Hours later, the coroner writes in the report with his gloved, blood-stained hands: Cause of death: "unbearable self-contained pain/natural causes".

ANL

21.10.08

Trinity



As Los Alamos director J. Robert Oppenheimer watched the demonstration, he later said that a line from the Hindu scripture the Bhagavad Gita came to mind:

I am become Death, the destroyer of worlds.

Test director Kenneth Bainbridge replied to Oppenheimer, "Now we are all sons of bitches."

16.10.08

Poder y Negócios

Eu poderia escrever aqui sobre o meu entediante cotidiano ou sobre amores passados, mas eu quero mesmo é passar uma dica pra o pessoal que gosta de investir na bolsa e tirar rendimento todo mês: não rola. A Bovespa caiu 40% porque a maior parte dos investidores é de natureza especulativa. Se houvesse pessoas dispostas a investir na empresa mesmo, como deveria ser, o índice não cairia tanto. Os urubus do mercado já estão sentindo o doce aroma da massa putrefata dos bancos.

Estamos no meio de um pânico no mercado. Fala-se muito de Grande Depressão II, mas o mundo é muito mais rico hoje que naquela época. Chávez pode espernear quanto quiser, e os urubus da hora podem decretar o fim da hegemonia americana, mas esta crise revela justamente o contrário, a dependência mundial do sistema financeiro americano. Mas, de fato, as nacionalizações de bancos representam um passo à esquerda, ou ao socialismo, para alguns dos países mais capitalistas do mundo.

Nos EUA, o candidato da esquerda está à frente nas pesquisas. Ontem (16/10) foi o último debate e mais uma vez Barack Obama demonstrou segurança, sangue frio e inteligência. McCain não é nenhum monstro, mas está atrás nas pesquisas porque nada como morder o bolso dos americanos para promover uma mudança de governo. O país estará em boas mãos, diferentemente da eleição para prefeito em Salvador, em que os eleitores acabaram com duas mórbidas escolhas: o pior ou o menos pior, eu presumo, até porque não conheço Walter Pinheiro. Mas com João Henrique, só posso recomendar uma coisa: chora, minha Bahia, chora.

P.S: o título do post é uma homenagem ao amigo mexicano Rafael Carballo.

10.10.08

A natureza do caos



Kal's cartoon, do Economist

9.10.08

Agridoce

A vida no exílio é agridoce, como toda vida deve ser. Quando a saudade amarga demais se começa a cavoucar entre os grãos para produzir banquetes de feijão gorduroso; São dias de trabalho e reviravoltas, de grandes oportunidades efêmeras que se dissolvem em questão de horas. E a atmosfera de pânico, incruada nas torres que admiro entre um cigarro ou outro, do outro lado do rio. Wall Street anda vazia esses dias. Todos parecem satisfeitos demais em criticar a própria queda, quando poderiam enxergar a luz de toda essa loucura. Assisti satisfeito ao circo pegar fogo desde o ano passado mas esse prazer amargou nos últimos dias. O governo americano está se debatendo desesperadamente para conter o colapso do sistema financeiro mundial: descobriram que aquele dinheiro todo não existia. Há uns quinze dias, começava a esfriar e a televisão não parava de chiar com falências astronômicas de baluartes do sistema. Desliguei o aparelho, sentamos à mesa. O Natal será difícil em 2008, disse minha mulher, esfregando os olhos.

A Média Industrial Dow Jones já retrocedeu para onde se encontrava antes de Bush assumir a presidência. Os americanos reclamam que suas contas de aposentadoria, cujo rendimento arriscado foi achatado pela crise, perderam US$ 2 trilhões nos últimos quinze dias. Ninguém sabe onde vai parar esse buraco. A nacionalização mundial dos bancos pode ser um golpe de humildade importante para a megalomania dos materialistas, mas também ameaça causar uns cinco anos de estagnação dolorida. Os brasileiros pelo menos já estão acostumados.

Benjamin Graham, famoso professor de economia, foi um dos principais proponentes do investimento de longo prazo, em que se busca dividendo e o acionistas realmente
acompanham o desempenho da empresa. Warren Buffett, o segundo homem mais rico do mundo, famoso pela modéstia e frugalidade, é um de seus discípulos. Graham dizia que o "Mr. Market" é um cara estranho, volúvel, que todo dia aparece na sua porta oferecendo um preço diferente para compra e venda, e o melhor a fazer é não se atazanar com tanta amolação.

Lula está vivendo no país dos sonhos e por isso mesmo mente gostoso. A crise bancária não afetou as grandes instituições brasileiras, recheadas de depósitos, mas dificultou pra muito banco médio e pequeno refinanciar suas operações de crédito. E crédito, porra, foi o que disparou o Brasil esse ano. O Globo chegou a dizer que os grandes bancos estavam tentanto forçar as piabas a vender carteiras de crédito na bacia das almas, a.k.a. fucking cheap. Pra frente, Brasil.

Já faz quinze dias que o formulário de registro para votar nas eleições presidenciais está juntando poeira na mesa. Tenho assistido aos debates avidamente mas evito defender qualquer candidato. Eu gosto mesmo é de atacar Sarah Pailin. Eu respeito McCain e já senti admiração por seu passado heróico, mas não acho que ele tenha a capacidade de compreender os frenéticos desafios da era. Obama é muito mais confortável na manta de reformista. Caso vença as eleições, como prevêem as pesquisas, Obama representaria um notável marco na evolução das relações raciais nos Estados Unidos e no futuro da nação como um todo, há apenas 50 anos do movimento dos direitos civis e Martin Luther King Jr. Mas Obama pode ser uma merda. Faz um ano que acompanho essa eleição e Obama me parece muito mais um cara conciliador, centrista, do que esse bicho perigoso que os republicanos andam pintando por aí. Oremos para que o destino não depósite no julgamento de Sarah Palin, a caçadora de alce do Alasca, a decisão final de vaporizar ou não o Irã.

ANL, o vampiro da lâmpada fluorescente.

7.10.08

The Animals

Mr. Cajas was in a quick-reaction force, the guys who knock down doors. “We did a good job,” he said. “The irony of service is, we did a good job, and came back different. This is what it does to humans. The analogy we used was prison. We were locked in the base, and every time we were released, we had to go kill people. We acted like animals because that’s what we were.”

2.10.08

Sobre os escritores

"Eruditos, pretensiosos e bem providos de mãozinhas de seda... Mas sem rosto e entregues a um rendoso comércio de prestígio, um promíscuo troca-troca explícito, a maior suruba da paróquia."
Raduan Nassar

19.9.08

Ser baiano



O Mito da Preguiça Baiana, Não Passa de Racismo

Escrito por Girimias Dourado
Saturday, 04 December 2004

"Preguiça baiana" é faceta do racismo. A famosa "malemolência" ou preguiça baiana, na verdade, não passa de racismo, segundo concluiu uma tese de doutorado defendida na USP. A pesquisa que resultou nessa tese durou quatro anos.


A tese, defendida pela professora de antropologia Elisete Zanlorenzi, da PUC-Campinas, sustenta que o baiano é muitas vezes mais eficiente que o trabalhador das outras regiões do Brasil e contesta a visão de que o morador da Bahia vive em clima de "festa eterna".

Pelo contrário, é justamente no período de festas que o baiano mais trabalha. Como 51% da mão-de-obra da população atua no mercado informal, as festas são uma oportunidade de trabalho. "Quem se diverte é o turista", diz a antropóloga.

O objetivo da tese foi descobrir como a imagem da preguiça baiana surgiu e se consolidou. Elisete concluiu, após quatro anos de pesquisas históricas,que a imagem da preguiça derivou do discurso discriminatório contra os negros e mestiços, que são cerca de 79% da população da Bahia.

O estudo mostra que a elevada porcentagem de negros e mestiços não é uma coincidência. A atribuição da preguiça aos baianos tem um teor racista.

A imagem de povo preguiçoso se enraizou no próprio Estado, por meio da elite portuguesa, que consideravam os escravos indolentes e preguiçosos, devido às suas expressões faciais de desgosto e a lentidão na execução do serviço (como trabalhar bem-humorado em regime de escravidão????).

Depois, se espalhou de forma acentuada no Sul e Sudeste a partir das migrações da década de 40. Todos os que chegavam do Nordeste viraram baianos. Chamá-los de preguiçosos foi a forma de defesa encontrada para denegrir a imagem dos trabalhadores nordestinos (muito mais paraibanos do que propriamente baianos), taxando- os como desqualificados, estabelecendo fronteiras simbólicas entre dois mundos como forma de "proteção" dos seus empregos.

Elisete afirma que os próprios artistas da Bahia, como Dorival Caymmi, Caetano Veloso e Gilberto Gil, têm responsabilidade na popularização da imagem. "Eles desenvolveram esse discurso para marcar um diferencial nas cidades industrializadas e urbanas.

A preguiça, aí, aparece como uma especiaria que a Bahia oferece para o Brasil", diz Elisete.

Até Caetano se contradiz quando vende uma imagem e diz: "A fama não corresponde à realidade. Eu trabalho muito e vejo pessoas trabalhando na Bahia como em qualquer lugar do mundo".

Segundo a tese, a preguiça foi apropriada por outro segmento: a indústria do turismo, que incorporou a imagem para vender uma idéia de lazer permanente "Só que Salvador é uma das principais capitais industriais do país, com um ritmo tão urbano quanto o das demais cidades."

O maior pólo petroquímico do país está na Bahia, assim como o maior pólo industrial do norte e nordeste, crescendo de forma tão acelerada que, em cerca de 10 anos será o maior pólo industrial na américa latina.

Para tirar as conclusões acerca da origem do termo "preguiça baiana", a antropóloga pesquisou em jornais de 1949 até 1985 e estudou o comportamento dos trabalhadores em empresas. O estudo comprovou que o calendário das festas não interfere no comparecimento ao trabalho. O feriado de carnaval na Bahia coincide com o do resto do país. Os recessos de final de ano também.

A única diferença é no São João (dia 24 /06), que é feriado em todo o norte e nordeste (e não só na Bahia).

Em fevereiro (Carnaval), uma empresa, com sede no Pólo Petroquímico da Bahia, teve mais faltas na filial de São Paulo que na matriz baiana (sendo que o n° de funcionários na matriz é 50% maior do que na filial citada).

Outro exemplo: a Xerox do Nordeste, que fica na Bahia, ganhou os dois prêmios de qualidade no trabalho dados pela Câmara Americana de Comércio (e foi a única do Brasil).

Pesquisas demonstram que é no Rio de Janeiro que existem mais dos chamados "desocupados" (pessoas em faixa etária superior a 21 anos que transitam por shoppings, praias, ambientes de lazer e principalmente bares de bairros durante os dias da semana entre 9 e 18h), considerando levantamento feito em todos os estados brasileiros. A Bahia aparece em 13° lugar.

Acredita-se hoje, e ainda por mais uns 5 a 7 anos, que a Bahia é o melhor lugar para investimento industrial e turístico da América Latina, devido a fatores como incentivos fiscais, recursos naturais e campo para o mercado ainda não saturado.

O investimento industrial e turístico tem atraído muitos recursos para o estado e inflado a economia, sobretudo de Salvador, o que tem feito inflar também o mercado financeiro (bancos, financeiras e empresas prestadoras de serviços como escritórios de advocacia, empresas de auditoria, administradoras e lojas do terceiro setor).

Mídia reproduz preconceito e imagem construída da preguiça baiana.

A preguiça baiana e a imagem generalizada do nordestino malemolente e devagar são perfis construídos historicamente e reforçados pela mídia.

Essa é uma das conclusões da tese, que será transformada em livro e deve chegar às livrarias até o final do ano.

A pesquisadora explica que, depois de morar em Salvador, entre 1980 e 1984, ficou intrigada com a campanha difamatória comandada pela mídia local sobre o movimento do bairro Calabar, que teve origem a partir de uma ocupação na década de 1940 em uma região nobre da capital baiana.

"O que me chamou a atenção foi que eles davam um duro danado: conseguiram água, esgoto e luz para Calabar. Mas a imprensa fazia a imagem de vagabundos, preguiçosos e criminosos", lembra a autora da pesquisa, que focou seu trabalho na representação do trabalho e do tempo.

O papel da imprensa nessa construção é muito importante, diz Zanlorenzi, porque reproduz o discurso e os interesses da elite. Desde o século XVI, a elite baiana depreciava os negros escravos, que eram descritos, primeiramente, como desorganizados e sujos, depois como analfabetos e sem conhecimento, e, finalmente, como preguiçosos.

A famosa Ladeira da Preguiça, em Salvador, ganhou este nome por ter sido a via de acesso de mercadorias vindas do porto para a cidade e que eram levadas em carretões puxados a boi e empurrados por escravos.

Essa era a forma de interiorização da dominação, no período da escravidão, afirma a antropóloga. Depois, a depreciação assumiu a forma da exclusão. Assim aconteceu com os negros, índios e imigrantes nordestinos nas regiões Sul e Sudeste, quando, a partir da década de 1950, intensificou-se a imigração.

A imagem de preguiçoso estendeu-se aos imigrantes dos estados nordestinos, categorizados como "baianos", a grande maioria oriunda de fazendas vitimadas pela seca, normalmente mestiços, afro-descendentes e desqualificados profissionalmente.

O nordestino foi responsabilizado, enfatiza a pesquisadora, por todo caos do crescimento urbano da cidade, enquanto não havia qualquer projeto de inclusão social.

"Depreciar era interessante, porque justificava baixos salários e falta de investimento", esclarece.

O sociólogo Octavio Ianni (1925-2004), um dos examinadores da banca de doutorado de Zanlorenzi, destacou que a tese mostrava a forma sutil de racismo a negros e nordestinos.

No candomblé, outra raiz dessa imagem pôde ser identificada, uma vez que a relação tempo e trabalho ali existente se contrasta com a da visão capitalista.

"A influência da cultura afro na Bahia é muito forte e o candomblé é a matriz religiosa dessa cultura, onde o trabalho não se contrapõe ao tempo livre nem é uma obrigação, como no capitalismo", explica.

No candomblé, o trabalho é só um dos aspectos da vida, além do lazer, da família e dos amigos, sem fazer com que isso represente um trabalho desleixado.

"Só agora, o capitalismo está descobrindo a necessidade de ver o trabalhador como um ser humano", lembra a antropóloga. Não é à toa que na sociedade capitalista é tão comum perguntar a uma criança "o que ela vai ser quando crescer", e chama de preguiça o trabalho que não é realizado para o acúmulo.

Assim, o índio, por exemplo, que produz para a subsistência, também recebeu o mesmo estigma de preguiçoso.

Jornais

Em seu doutorado, Zanlorenzi analisou a cobertura dos jornais Folha de S. Paulo, O Estado de São Paulo, Jornal da Bahia e Jornal do Brasil, entre os anos de 1949 e 1985, e constatou, por exemplo, que o Sudeste foi construindo a imagem da preguiça associada à imigração.

O trabalho concentrou-se nos períodos de festa (junho/julho/agosto e dezembro a março), quando mais se trabalha no Nordeste, mas quando mais se reforça a imagem da preguiça e do não-trabalho.

Entre as conclusões, verificou-se que os jornais eram o espelho do discurso social mais amplo, ou seja, não eram eles os geradores, mas ajudavam a criar um discurso autônomo na sociedade. Outra constatação da pesquisa foi que a mídia passou a ser o espaço de reprodução do discurso turístico, a partir da década de 1960, quando o próprio governo do estado da Bahia passou a explorar a imagem da preguiça.

Nessa época, a indústria do turismo investiu no slogan da Bahia paradisíaca, para onde deve ir aquele que quer descansar, onde a festa nunca acaba e ninguém usa relógio. Também nesse período, Dorival Caymmi e Ary Barroso cantavam a Salvador de 1920, linda e malemolente, enquanto os novos baianos - Gal Costa, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia - incorporaram a mesma imagem da preguiça, como forma de se diferenciar no cenário musical da época nas regiões Sudeste e Sul.

Até hoje, a antropóloga ressalta que os baianos trabalham muito pela indústria do entretenimento, embora a preguiça tenha sido adotada como traço de identidade cultural.

Zanlorenzi, diz não acreditar que o discurso da preguiça tenha impregnado os próprios baianos e nordestinos que moram na sua região, "porque eles sabem o quanto trabalham".

No entanto, ela acredita que quando esses migram para o Sudeste acabam assumindo essa inferiorização em função do meio externo. "Quando se folcloriza, o discurso se desloca da realidade e ganha vida própria, criando uma força até maior do que tem", explica.

Elisete Zanlorenzii, é antropóloga, pesquisadora, professora da PUC-Campinas e coordena a área de Política Cultural do Programa de Apoio às Políticas Públicas da Pró-Reitoria de Extensão da mesma universidade.



comciencia

5.9.08

Troopergate


Confesso que as duas convenções políticas americanas me deixaram enojado, reflexivo. A convenção democrata menos, apesar daquelas colunas cafonas. Palavras chave ou nuvem de idéias: restaurar o sonho americano e a posição de liderança do país no mundo. Quando eu e uma amiga ouvimos isso, ficamos assustados.

A convenção republicana foi de um militarismo atroz, críticas ferinas a Obama e à esquerda, principalmente ao arquétipo do liberal. Então John McCain, condecorado herói da guerra do Vietnã, ex-prisioneiro de guerra e etc, e diz: "A mudança está vindo", sem muita cerimônia, se apropria do bordão da oposição para prometer mudança...mesmo com o seu partido no poder há 8 desastrosos anos de George W. Bush. (Já está na web o trailer de W., filme de Oliver Stone sobre o filho pródigo, garantia de alvoroço, pois será lançado pouco antes da eleição.)

Uma ferramenta interessante para tentar se prever o resultado das eleições presidenciais americanos é o electoral vote tracker do jornal USA Today, o maior do país.

Com base em pesquisas de opinião, eles já apontam alguns estados que tendem para os democratas e outros que preferem os republicanos. Eu voltei até a eleição de 1960, JFK contra Nixon, e acompanhei os padrões de mudança de voto dos estados durante os anos. Na reeleição de Reagan, em 1984, os americanos ovacionaram o pai do neoconversadorismo com mais de 80% dos votos.

O padrão da era Bush lembra o fim do governo Nixon, em 1973, quando o democrata Jimmy Carter venceu a eleição. Se parece também com o da vitória de Kennedy. A maioria das pesquisas (e, acredite, são centenas) indica vantagem de Obama no início da corrida, que vai até 4 de novembro. A governadora do Alaska, Sarah Pailin, escolha ousada dos republicanos para atrair o voto feminino das desiludidas eleitoras de Hillary Clinton, fascinou a direita. Mas todo tipo de sujeira já vem à tona sobre a ex-miss estadual: sua filha de 17 anos apareceu grávida, ela está sendo investigada pela assembléia estadual por suspeita de abuso de poder - o marido e um assesor tentaram forçar o secretário de segurança pública a demitir um policial rodoviário, um "Trooper", daí o nome do novo escândalo: Troopergate.


Voltando ao mapa do colégio eleitoral, acho que as chances de Obama são boas. Os americanos estão insatisfeitos com a incompetência do último governo e não enxergam nenhum Reagan a surgir pelo caminho. Só o velho McCain, que fez um bonito e hipócrita discurso ao aceitar a indicação de seu partido para disputar a presidência.

O National Enquirer, tablóide de fofocas dos mais escusos, anunciou que vai divulgar aos poucos fatos chocantes sobre Sarah Pailin e sua família. Antes execrado universalmente, o Enquirer divulgou com exclusividade um caso extra-conjugal do ex-senador John Edwards, um dos pretendentes democratas a disputar a presidência que ficou pelo caminho. Sua mulher (detalhe) está com câncer terminal. A carreira de Edwards, por enquanto, parece ter sido destruída.

John Edwards fez fama mesmo com processo milionários contra várias empresas por negligência ou responsabilidade. Seu maior caso, uma indenização de mais de US$ 20 milhões, foi obtido com uma menina de três anos que sentou num ralo aberto e teve seu intestino grosso sugado pela bomba da piscina. Ela ainda está viva.

A família Lakey, aparentemente feliz, com a menina em questão no meio. A foto é dos anos 90. Hoje ela deve estar com 19 anos.

1.9.08

Os FFs da Bahia

DEFINE A SUA CIDADE

De dous ff se compõe
esta cidade a meu ver,
um furtar, outro foder.
Recopilou-se o direito,
e quem o recopilou
com dous ff o explicou
por estar feito e bem feito:
por bem digesto e colheito,
só com dous ff o expõe,
e assim quem os olhos põe
no trato, que aqui se encerra,
há de dizer que esta terra
De dous ff se compõe.
Se de dous ff composta
está a nossa Bahia,
errada a ortografia
a grande dano está posta:
eu quero fazer aposta,
e quero um tostão perder,
que isso a há de perverter,
se o furtar e o foder bem
não são os ff que tem
Esta cidade a meu ver.
Provo a conjetura já
prontamente com um brinco:
Bahia tem letras cinco
que são BAHIA,
logo ninguém me dirá
que dous ff chega a ter
pois nenhum contém sequer,
salvo se em boa verdade
são os ff da cidade
um furtar, outro foder.

Gregório de Mattos