Matéria do programa "Soterópolis", da TVE BA.
19.5.10
30.4.10
Revista Machado

Conheça a revista Machado.
Projeto de Delfin, um dos fundadores das Edições K e da Mojo Books.
Delfin abriu a venda e você pode achá-lo em www.studiodelrey.com.br.
Literatura e design é com ele mesmo.
29.4.10
The New Colossus
*Emma Lazarus
Not like the brazen giant of Greek fame,
With conquering limbs astride from land to land;
Here at our sea-washed, sunset gates shall stand
A mighty woman with a torch, whose flame
Is the imprisoned lightning, and her name
Mother of Exiles. From her beacon-hand
Glows world-wide welcome; her mild eyes command
The air-bridged harbor that twin cities frame.
"Keep ancient lands, your storied pomp!" cries she
With silent lips. "Give me your tired, your poor,
Your huddled masses yearning to breathe free,
The wretched refuse of your teeming shore.
Send these, the homeless, tempest-tost to me,
I lift my lamp beside the golden door!"
Not like the brazen giant of Greek fame,
With conquering limbs astride from land to land;
Here at our sea-washed, sunset gates shall stand
A mighty woman with a torch, whose flame
Is the imprisoned lightning, and her name
Mother of Exiles. From her beacon-hand
Glows world-wide welcome; her mild eyes command
The air-bridged harbor that twin cities frame.
"Keep ancient lands, your storied pomp!" cries she
With silent lips. "Give me your tired, your poor,
Your huddled masses yearning to breathe free,
The wretched refuse of your teeming shore.
Send these, the homeless, tempest-tost to me,
I lift my lamp beside the golden door!"
17.4.10
Jolivaldo Freitas
Da Tribuna da Bahia
As meninas lá de Itapuã
Publicada: 14/04/2010
Jolivaldo Freitas
Houve um tempo que para chegar a Itapuã era um suplício. Isso lá pelos idos dos anos 50 e eu ia no colo da minha mãe, portanto não tenho queixas do percurso. Mas era assim, já que morávamos na Cidade Baixa: pegava um lotação na Boa Viagem, saltava na Praça Cayru, atravessava a rua, subia o Elevador Lacerda.
No ponto final da Praça da Sé demorava, mas chegava um ônibus (não lembro se era o Trolebus – ônibus elétrico – ou se era comum) e ia pinga-pinga pingando até o Rio Vermelho. Descia, vinha um outro até a Pituba e daí era um deus-nos-acuda até conseguir transporte para Itapuã.
O que iríamos fazer lá? Veranear é claro. Itapuã era terra de veraneio e pescadores. Tão longe que os moradores achavam péssimo ter de vir para a cidade ou para Salvador, pois era assim que tratava a capital: como algo distante e á qual eles não pertenciam psicologicamente, embora parte geograficamente.
Não havia nenhuma casa de alvenaria. A nossa mesmo fora comprada na mão de uma família de um pescador que desaparecera no mar (conto a história mais adiante) e que terminou mudando para a Praia do Forte – bem mais longe ainda, coisa de mais de um dia de viagem.
Mas era algo que até hoje o povo lá de casa comenta – os mais velhos, lógico – com saudade matadeira. Diziam, e eu não acredito, que pela Boca do Rio ainda tinha índios remanescentes dos tupinambás e que tudo era dunas e Mata Atlântica. Alguns garantem que tinha raposa pelo caminho e em cada lagoa os jacarés ficavam crocodilando ao sol.
Era ar puro, salitre e quando em se chegando a Itapuã, à beira-mar, aquela maresia, que vem a ser uma preguiça danada. E se desse para escutar as ondas batendo nas pedras (todo mundo sabe que Itapuã significa “Pedra que ronca”, na língua Tupy-Guarany), aí é que se entregar ao tempo.
O povo lá de casa garante que tinha um tio, já encantado, que tinha espírito (sem trocadilho) aventureiro. Ele gostava de sair para caçar pombas-rolas, jacarés e anuns e também saía com os pescadores para alto-mar em busca de sororoca e atum; e foi num dos barcos que ele costumava ir com os amigos que aconteceu o inesperado. O dia estava claro, e logo ao alvorecer colocaram o saveiro na água e partiram na direção Norte, lá pelas partes de Arembepe.
Quando todos voltavam, no final da tarde, houve uma viração, tudo escureceu como se fosse o fim do mundo. Os raios caiam como chuva e a chuva como se fosse espetos e deu noite alta e ninguém tinha chegado.
Os outros pescadores não podiam sair por causa da arrebentação. Quando o mar acalmou já era madrugada e os companheiros saíram em busca de ajuda. Pelo que se conta nas histórias lá de casa, um mestre-saveirista decidiu, com sua experiência, fazer o trajeto contrário aos outros e foi ele quem conseguiu achar a embarcação quebrada ao meio, sem vela e sem leme com os homens agarrados ao que restou do casco e assustados. Miguel Poiteiro sumiu e nunca mais apareceu. Foi a família dele que vendeu a casa para o pessoal lá de casa.
Lembro, nos anos 60 do século passado, do coqueiral fechado de Itapuã, da Lagoa do Abaeté e das dunas que tomavam toda a geografia, partindo de Piatã até sumir pelas bandas da Praia do Flamengo. E lembro das noites de lua cheia coincidente com o Verão, quando as meninas botavam suas melhores chitas e saiam recendendo a água-de-cheiro, alfazema e naftalina.
Passavam flertando e quando tudo dava certo, os coqueiros eram abrigos e a areia da praia era a alcova. Vez em quando um pai com peixeira na bainha botava para correr. Ou uma baleia se aproximava da costa e nos olhava com seu olhar de peixe morto.
As meninas lá de Itapuã
Publicada: 14/04/2010
Jolivaldo Freitas
Houve um tempo que para chegar a Itapuã era um suplício. Isso lá pelos idos dos anos 50 e eu ia no colo da minha mãe, portanto não tenho queixas do percurso. Mas era assim, já que morávamos na Cidade Baixa: pegava um lotação na Boa Viagem, saltava na Praça Cayru, atravessava a rua, subia o Elevador Lacerda.
No ponto final da Praça da Sé demorava, mas chegava um ônibus (não lembro se era o Trolebus – ônibus elétrico – ou se era comum) e ia pinga-pinga pingando até o Rio Vermelho. Descia, vinha um outro até a Pituba e daí era um deus-nos-acuda até conseguir transporte para Itapuã.
O que iríamos fazer lá? Veranear é claro. Itapuã era terra de veraneio e pescadores. Tão longe que os moradores achavam péssimo ter de vir para a cidade ou para Salvador, pois era assim que tratava a capital: como algo distante e á qual eles não pertenciam psicologicamente, embora parte geograficamente.
Não havia nenhuma casa de alvenaria. A nossa mesmo fora comprada na mão de uma família de um pescador que desaparecera no mar (conto a história mais adiante) e que terminou mudando para a Praia do Forte – bem mais longe ainda, coisa de mais de um dia de viagem.
Mas era algo que até hoje o povo lá de casa comenta – os mais velhos, lógico – com saudade matadeira. Diziam, e eu não acredito, que pela Boca do Rio ainda tinha índios remanescentes dos tupinambás e que tudo era dunas e Mata Atlântica. Alguns garantem que tinha raposa pelo caminho e em cada lagoa os jacarés ficavam crocodilando ao sol.
Era ar puro, salitre e quando em se chegando a Itapuã, à beira-mar, aquela maresia, que vem a ser uma preguiça danada. E se desse para escutar as ondas batendo nas pedras (todo mundo sabe que Itapuã significa “Pedra que ronca”, na língua Tupy-Guarany), aí é que se entregar ao tempo.
O povo lá de casa garante que tinha um tio, já encantado, que tinha espírito (sem trocadilho) aventureiro. Ele gostava de sair para caçar pombas-rolas, jacarés e anuns e também saía com os pescadores para alto-mar em busca de sororoca e atum; e foi num dos barcos que ele costumava ir com os amigos que aconteceu o inesperado. O dia estava claro, e logo ao alvorecer colocaram o saveiro na água e partiram na direção Norte, lá pelas partes de Arembepe.
Quando todos voltavam, no final da tarde, houve uma viração, tudo escureceu como se fosse o fim do mundo. Os raios caiam como chuva e a chuva como se fosse espetos e deu noite alta e ninguém tinha chegado.
Os outros pescadores não podiam sair por causa da arrebentação. Quando o mar acalmou já era madrugada e os companheiros saíram em busca de ajuda. Pelo que se conta nas histórias lá de casa, um mestre-saveirista decidiu, com sua experiência, fazer o trajeto contrário aos outros e foi ele quem conseguiu achar a embarcação quebrada ao meio, sem vela e sem leme com os homens agarrados ao que restou do casco e assustados. Miguel Poiteiro sumiu e nunca mais apareceu. Foi a família dele que vendeu a casa para o pessoal lá de casa.
Lembro, nos anos 60 do século passado, do coqueiral fechado de Itapuã, da Lagoa do Abaeté e das dunas que tomavam toda a geografia, partindo de Piatã até sumir pelas bandas da Praia do Flamengo. E lembro das noites de lua cheia coincidente com o Verão, quando as meninas botavam suas melhores chitas e saiam recendendo a água-de-cheiro, alfazema e naftalina.
Passavam flertando e quando tudo dava certo, os coqueiros eram abrigos e a areia da praia era a alcova. Vez em quando um pai com peixeira na bainha botava para correr. Ou uma baleia se aproximava da costa e nos olhava com seu olhar de peixe morto.
8.4.10
6.4.10
I DON'T WANT TO SET THE WORLD ON FIRE
Words and music by Eddie Seiler, Sol Marcus, Bennie Benjamin and Eddie Durham
I don’t want to set the world on fire
I just want to start
A flame in your heart
In my heart I have but one desire
And that one is you
No other will do
I’ve lost all ambition for worldly acclaim
I just want to be the one you love
And with your admission that you feel the same
I’ll have reached the goal I’m dreaming of
Believe me
I don’t want to set the world on fire
I just want to start
A flame in your heart
[Spoken Word]
I don't wanna set the world on fire, honey
I love ya too much
I just wanna start a great big flame
Down in your heart
You see, way down inside of me
Darlin' I have only one desire
And that one desire is you
And I know nobody else ain't gonna do
[Sung]
I’ve lost all ambition for worldly acclaim
I just want to be the one you love
And with your admission that you feel the same
I’ll have reached the goal I’m dreaming of
Believe me
I don’t want to set the world on fire
I just want to start
A flame in your heart
Dano colateral
Veja como é fácil para alguns pilotos fuzilar crianças.
(atenção: conteúdo chocante)
Veja aqui, sem precisar de login no youtube.
(atenção: conteúdo chocante)
Veja aqui, sem precisar de login no youtube.
5.4.10
Popularidade e consciência coletiva
Gabriel Perissé (1998), pesquisador da FFLCH-USP e fundador da ONG Projeto Literário Mosaico para a formação de escritores, atribui o sucesso de Paulo Coelho ao anseio “pelo retorno ao mundo das tradições, das revelações... [a um] mundo que nos dê uma fé...; ou que nos dê uma vitória sobre o caos.” Ele fala do sucesso do autor em termos de Brasil, mas podemos estender essa conclusão sua ao resto do mundo, uma vez que as razões por ele apontadas para esse sentimento coletivo de volta a um tempo “místico” é o saldo negativo do século XX, em que a humanidade viveu duas guerras mundiais (e aqui eu acrescentaria os conflitos do Oriente Médio), a falência ideológica do comunismo (e da própria democracia, eu diria), a competição selvagem, a radicalização das desigualdades, a violência desenfreada e todo o tipo de desumanidade. Pode-se argumentar que esses problemas não são típicos dos tempos modernos e que a humanidade sempre viveu guerras e crises ideológicas. No entanto, o positivismo do século XIX, que exerceu uma influência notável na filosofia analítica do século XX, nos fez crer no progresso baseado na razão e na ciência. Assim, conviver com as guerras no Oriente Médio, a fome africana, a pandemia da AIDS e o atraso na América Latina e em outras regiões do mundo, por exemplo, parece inadmissível para a humanidade de hoje; não é lógico.
26.3.10
Masters of War
Masters Of War
Come you masters of war
You that build all the guns
You that build the death planes
You that build the big bombs
You that hide behind walls
You that hide behind desks
I just want you to know
I can see through your masks
You that never done nothin’
But build to destroy
You play with my world
Like it’s your little toy
You put a gun in my hand
And you hide from my eyes
And you turn and run farther
When the fast bullets fly
Like Judas of old
You lie and deceive
A world war can be won
You want me to believe
But I see through your eyes
And I see through your brain
Like I see through the water
That runs down my drain
You fasten the triggers
For the others to fire
Then you set back and watch
When the death count gets higher
You hide in your mansion
As young people’s blood
Flows out of their bodies
And is buried in the mud
You’ve thrown the worst fear
That can ever be hurled
Fear to bring children
Into the world
For threatening my baby
Unborn and unnamed
You ain’t worth the blood
That runs in your veins
How much do I know
To talk out of turn
You might say that I’m young
You might say I’m unlearned
But there’s one thing I know
Though I’m younger than you
Even Jesus would never
Forgive what you do
Let me ask you one question
Is your money that good
Will it buy you forgiveness
Do you think that it could
I think you will find
When your death takes its toll
All the money you made
Will never buy back your soul
And I hope that you die
And your death’ll come soon
I will follow your casket
In the pale afternoon
And I’ll watch while you’re lowered
Down to your deathbed
And I’ll stand o’er your grave
’Til I’m sure that you’re dead
9.3.10
Caipirinha azeda

Escrevi um ano atrás que os EUA e o Brasil estavam em lua-de-mel, mas sem álcool. Agora parece que as núpcias enverederam para o divórcio. Lula serviu uma caipirinha azeda para os EUA: a posição brasileira sobre as sanções contra o Irã e as tarifas de importação impostas em retaliação a subsídios americanos ao algodão se juntam à lista de pequenos incêndios do governo de Barack Obama. E a própria Hillary é um deles. Seu desempenho como secretária de Estado, o cargo mais importante da política exterior de seu país, tem sido pífio. Fica no jogo de cena, emitindo declarações de “decepção” que já não carregam o mesmo peso atualmente.
Lula ignorar Hillary e abraçar Ahmadinejad talvez seja a maior prova de que o Brasil optou por seguir uma política exterior independente, ligeiramente alinhada aos desígnios do eixo de Hugo Chávez – embora venda caças com tecnologia americana para a Colômbia matar esquerdistas da Farc no Equador. E Lula, que foi preso pela ditadura brasileira, abraça um Ahmadinejad que preside um regime homicida e torturador que passou de teocracia islâmica para ditadura militar. São paradoxos demais.
O presidente Lula, sempre cândido, deu duas declarações importantes na terça-feira. Chamou a imprensa de subserviente por perguntar se iria tratar de determinados assuntos com Hillary. Da matéria do Estadão: “Vou recebê-la numa deferência ao Celso Amorim, que me pediu para recebê-la. A conversa é de ministro a ministro. Quando for o Obama eu converso com ele.' Deixa bem claro que o tempo fechou com os americanos, que não cedem na principal questão comercial entre os dois países: o subsídio americano ao álcool de milho e as tarifas de importação do álcool brasileiro. Só o milho já é subsidiado pelo governo americano, como é possível ver no documentário recente “Food, Inc.”.
Na mesma entrevista, durante a terceira visita ao canteiro de obras do caro complexo petroquímico que a Petrobras quer construir para produzir plásticos com o petróleo Marlim, Lula revela também que o interesse do seu projeto político é investir cada vez mais em rodovias. "Aqueles que acham que o pobre vai deixar de usar carro são os que usam carro", disse Lula para os aplausos da plateia. E tome ponte para Itaparica, ponte sobre o Parque de Pituaçu e mais carros, engarrafamentos e poluição. Enquanto isso a China interliga o país com trens de alta velocidade e até nos EUA renasce o interesse no transporte ferroviário. Impossível ignorar que a cadeia de produção dos automóveis gera milhares de empregos. Mas carro é um negócio que soa meio atrasado diante dos desafios futuros da escassez de recursos naturais e do aquecimento global. Sempre astuto, talvez Lula esteja mesmo de olho é na energia do átomo, como seu colega iraniano. Só que a Constituição do Brasil proíbe seu uso para fins bélicos. Será que Lula acredita mesmo que Ahmadinejad não quer a bomba? Essa é uma pergunta que os moradores de Caetité saberão muito bem responder.
27.12.09
tempos hodiernos
Embora a distância fosse pouca, o trânsito o condenava por mais alguns longos minutos de espera. Àquele instante comparava-se a uma sucursal do inferno. Impaciente, girou o dial, contando com a sorte de escutar uma música que fosse capaz de fazê-lo abstrair daquela incômoda circunstância. Nada. Só propagandas e exaustivos jingles.
Irritou-se ainda mais quando o taxista ao seu lado obstinava a espremer a buzina, como se aquilo fosse o truque infalível para os carros desapacerem de sua frente e deixarem a pista livre. Pensou convictamente que estava cercado de imbecis trafegantes. Todo dia a mesma porcaria de convívio com pessoas que, a qualquer descuido, ficará passivo de perder o mais religioso cabaço. Isso mesmo. Estava todo mundo ali querendo comer o cu do outro. Foi daí que concluiu que o trânsito representa com expressividade viadagem dos tempos hodiernos.
(crotalo)
Irritou-se ainda mais quando o taxista ao seu lado obstinava a espremer a buzina, como se aquilo fosse o truque infalível para os carros desapacerem de sua frente e deixarem a pista livre. Pensou convictamente que estava cercado de imbecis trafegantes. Todo dia a mesma porcaria de convívio com pessoas que, a qualquer descuido, ficará passivo de perder o mais religioso cabaço. Isso mesmo. Estava todo mundo ali querendo comer o cu do outro. Foi daí que concluiu que o trânsito representa com expressividade viadagem dos tempos hodiernos.
(crotalo)
5.12.09
3.11.09
30.10.09
O declínio do dólar e o sorriso de Mao
Um dos filmes assistidos nos EUA ultimamente se chama “Atividade Paranormal”. Produzido em 2007, conta a história de um casal que se muda para uma casa nos subúrbios de San Diego, na Califórnia, um dos estados que mais simbolizou o sonho americano de prosperidade material. A esposa se diz perseguida desde pequena por uma entidade e logo depois da mudança coisas estranham começam a acontecer. O marido faz pouco do terror dela, mas os dois acabam chamando um especialista em demônios para estudar a casa. Há um espírito maligno que se alimenta de energia negativa na casa, diz o homem. No estilo falso-documentário de “A Bruxa de Blair”, o filme custou apenas US$ 15.000 e já rendeu mais de US$ 60 milhões à Paramount, subsidiária do conglomerado americano Viacom, também dono da rede de televisão CBS.
Além da conveniente proximidade com o Halloween, festival de origem pagã em que os americanos tentam exorcizar seus inúmeros medos, o sucesso do filme parece ecoar também o trauma nacional da recente crise imobiliária. Estimulado por incentivos tributários para os interessados na compra da primeira casa própria, e também pela magnitude do declínio no próprio valor dos imóveis, o mercado imobiliário voltou a dar sinais de vida, com leve alta no valor médio das residências. Em vez de enfrentarem o terror em suas próprias casas, os americanos podem se dar ao luxo de ver seus medos refletidos metaforicamente no casal cujo sonho de prosperidade é transformado em pesadelo. Enquanto isso, já se avizinha uma nova crise, desta vez com os imóveis comerciais, muitos deles vitimados pelas falências de empresas e surgimento de shoppings fantasmagoricamente vazios.
Desde a Grande Depressão, nos anos 30, os americanos viveram um grande período de expansão econômica irregular, mas impressionante. Mesmo com as esporádicas recessões, o padrão de vida da população continua refletindo sua renda per capita de US$ 40.000, a sexta maior do mundo. Homens como Warren Buffett, o presidente do conglomerado Berkshire Hathaway, fizeram fortunas durante esse período. Para o americano médio, essa pujança se traduziu em fácil acesso a crédito, carros e casas espantosamente grandes e baixo desemprego.
Mas agora a situação mudou e o desemprego está perto de 10%. Se estudarem os efeitos negativos da globalização na economia americana, talvez os manifestantes que costumam inundar as ruas contra o imperialismo ianque aplaudissem seus efeitos niveladores sobre a economia mundial. Cada vez menos industrializados, os EUA cedem à China o papel de fábrica do mundo e se transformam numa economia predominantemente de serviços; nesse meio tempo, os salários foram pressionados pela concorrência em nível mundial, tornando difícil sobreviver com os empregos que antes permitiam um padrão de vida confortável. Os pais estão assistindo ao mundo em que cresceram desmoronar com o desemprego dos filhos recém-formados nas faculdades, que cobram preços exorbitantes mas não servem mais para garantir o emprego. Antes forte, a moeda nacional é corroída cada vez mais pela inflação.
Sessenta e quatro anos atrás, os EUA emergiram vitoriosos do maior conflito militar da humanidade. Na cidadezinha de Bretton Woods, no Estado de New Hampshire, ditaram o modelo econômico do pós-guerra. Desde então, o combalido dólar ainda reina absoluto. É a moeda número um dos mercados de câmbio de Mogadisu a Londres. O governo americano sabe disso e tem aproveitado o peso das verdinhas para operar em US$ 1,3 trilhão no vermelho e sem qualquer lastro físico desde os anos 70, quando Richard Nixon acabou com o padrão ouro. Diferentemente do império britânico, a “paz americana” usou o poder do capital, das ideias, das armas e principalmente da moeda para ficar por cima da carne seca.
No fim do século 19, se popularizavam no Reino Unido os romances de invasão, como Drácula (1897), do irlandês Bram Stoker, em que uma estrangeiro sinistro se dirige a Londres para sugar na fonte o sangue da civilização mais próspera de então. Esse e outros livros refletiam o temor dos britânicos de que se avizinhava a decadência de sua dominância. Cinquenta anos depois, com o império dissolvido e o país devastado pela Segunda Guerra, o Reino Unido teve que pedir um empréstimo camarada de US$ 45 bilhões da ex-colônia para se reconstruir. Só terminou de pagá-lo em 2006. Hoje em dia a China é que assumiu o papel dos EUA nessa equação – segundo o Departamento do Tesouro dos EUA, a República Popular da China é maior detentora de títulos do Tesouro, com US$ 800 bilhões em agosto. Até o Brasil está nessa brincadeira: é o sexto maior detentor de Treasuries no mundo, com US$ 137 bilhões.
Continuam as reuniões, mas diferentemente de Bretton Woods, não surgem soluções; no máximo algum líder mundial pede a fundação de uma nova ordem. Mas essa ordem ainda não apareceu em definitivo; o sistema de bancos centrais iniciado após a Grande Depressão parece ter freado o ímpeto devastador da crise. Talvez a solução surja de um camponês da China que abandona a fome do povoado e, tal qual retirante, vai buscar um emprego nas fábricas do litoral. Ou talvez de uma vila africana, como Wangari Maathai, queniana ganhadora do Nobel da Paz de 2004 que inspirou um movimento responsável por plantar mais de 20 milhões de árvores.
O total de reservas chinesas em Treasuries aumentou quase US$ 230 bilhões desde agosto do ano passado. Até agora no ano, a China já cresceu 7,7%. Na nota de 100 iuanes, Mao até parece sorrir.

Links em inglês:
Reino Unido quita dívida da Segunda Guerra com os EUA:
http://www.independent.co.uk/news/business/news/britain-pays-off-final-instalment-of-us-loan--after-61-years-430118.html
Maiores detentores de títulos do Tesouro, segundo dados do governo americano:
http://www.treas.gov/tic/mfh.txt
China ultrapassa o Japão em investimento nos Treasuries:
http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2008/11/18/AR2008111803558.html
Biografia de Wangari Maathai, no site do Prêmio Nobel:
http://nobelprize.org/nobel_prizes/peace/laureates/2004/maathai-bio.html
Além da conveniente proximidade com o Halloween, festival de origem pagã em que os americanos tentam exorcizar seus inúmeros medos, o sucesso do filme parece ecoar também o trauma nacional da recente crise imobiliária. Estimulado por incentivos tributários para os interessados na compra da primeira casa própria, e também pela magnitude do declínio no próprio valor dos imóveis, o mercado imobiliário voltou a dar sinais de vida, com leve alta no valor médio das residências. Em vez de enfrentarem o terror em suas próprias casas, os americanos podem se dar ao luxo de ver seus medos refletidos metaforicamente no casal cujo sonho de prosperidade é transformado em pesadelo. Enquanto isso, já se avizinha uma nova crise, desta vez com os imóveis comerciais, muitos deles vitimados pelas falências de empresas e surgimento de shoppings fantasmagoricamente vazios.
Desde a Grande Depressão, nos anos 30, os americanos viveram um grande período de expansão econômica irregular, mas impressionante. Mesmo com as esporádicas recessões, o padrão de vida da população continua refletindo sua renda per capita de US$ 40.000, a sexta maior do mundo. Homens como Warren Buffett, o presidente do conglomerado Berkshire Hathaway, fizeram fortunas durante esse período. Para o americano médio, essa pujança se traduziu em fácil acesso a crédito, carros e casas espantosamente grandes e baixo desemprego.
Mas agora a situação mudou e o desemprego está perto de 10%. Se estudarem os efeitos negativos da globalização na economia americana, talvez os manifestantes que costumam inundar as ruas contra o imperialismo ianque aplaudissem seus efeitos niveladores sobre a economia mundial. Cada vez menos industrializados, os EUA cedem à China o papel de fábrica do mundo e se transformam numa economia predominantemente de serviços; nesse meio tempo, os salários foram pressionados pela concorrência em nível mundial, tornando difícil sobreviver com os empregos que antes permitiam um padrão de vida confortável. Os pais estão assistindo ao mundo em que cresceram desmoronar com o desemprego dos filhos recém-formados nas faculdades, que cobram preços exorbitantes mas não servem mais para garantir o emprego. Antes forte, a moeda nacional é corroída cada vez mais pela inflação.
Sessenta e quatro anos atrás, os EUA emergiram vitoriosos do maior conflito militar da humanidade. Na cidadezinha de Bretton Woods, no Estado de New Hampshire, ditaram o modelo econômico do pós-guerra. Desde então, o combalido dólar ainda reina absoluto. É a moeda número um dos mercados de câmbio de Mogadisu a Londres. O governo americano sabe disso e tem aproveitado o peso das verdinhas para operar em US$ 1,3 trilhão no vermelho e sem qualquer lastro físico desde os anos 70, quando Richard Nixon acabou com o padrão ouro. Diferentemente do império britânico, a “paz americana” usou o poder do capital, das ideias, das armas e principalmente da moeda para ficar por cima da carne seca.
No fim do século 19, se popularizavam no Reino Unido os romances de invasão, como Drácula (1897), do irlandês Bram Stoker, em que uma estrangeiro sinistro se dirige a Londres para sugar na fonte o sangue da civilização mais próspera de então. Esse e outros livros refletiam o temor dos britânicos de que se avizinhava a decadência de sua dominância. Cinquenta anos depois, com o império dissolvido e o país devastado pela Segunda Guerra, o Reino Unido teve que pedir um empréstimo camarada de US$ 45 bilhões da ex-colônia para se reconstruir. Só terminou de pagá-lo em 2006. Hoje em dia a China é que assumiu o papel dos EUA nessa equação – segundo o Departamento do Tesouro dos EUA, a República Popular da China é maior detentora de títulos do Tesouro, com US$ 800 bilhões em agosto. Até o Brasil está nessa brincadeira: é o sexto maior detentor de Treasuries no mundo, com US$ 137 bilhões.
Continuam as reuniões, mas diferentemente de Bretton Woods, não surgem soluções; no máximo algum líder mundial pede a fundação de uma nova ordem. Mas essa ordem ainda não apareceu em definitivo; o sistema de bancos centrais iniciado após a Grande Depressão parece ter freado o ímpeto devastador da crise. Talvez a solução surja de um camponês da China que abandona a fome do povoado e, tal qual retirante, vai buscar um emprego nas fábricas do litoral. Ou talvez de uma vila africana, como Wangari Maathai, queniana ganhadora do Nobel da Paz de 2004 que inspirou um movimento responsável por plantar mais de 20 milhões de árvores.
O total de reservas chinesas em Treasuries aumentou quase US$ 230 bilhões desde agosto do ano passado. Até agora no ano, a China já cresceu 7,7%. Na nota de 100 iuanes, Mao até parece sorrir.

Links em inglês:
Reino Unido quita dívida da Segunda Guerra com os EUA:
http://www.independent.co.uk/news/business/news/britain-pays-off-final-instalment-of-us-loan--after-61-years-430118.html
Maiores detentores de títulos do Tesouro, segundo dados do governo americano:
http://www.treas.gov/tic/mfh.txt
China ultrapassa o Japão em investimento nos Treasuries:
http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2008/11/18/AR2008111803558.html
Biografia de Wangari Maathai, no site do Prêmio Nobel:
http://nobelprize.org/nobel_prizes/peace/laureates/2004/maathai-bio.html


