9.11.08

Sans-culottes da Bahia

”Então viu-se nesta cidade reunir-se uma multidão de negros a fazer depósitos de pedras em alguns lugares muito públicos, como o Largo do Teatro e ruas adjacentes; tomaram suas posições e logo que apareceu uma procissão que era feita por naturais da Europa, atiraram sobre ela uma infinidade de pedradas (...) Chegada a noite, reuniram-se grandes magotes em diferentes sítios e apedrejaram todos os soldados e mais pessoas que viram ser Europeus.”

Madeira de Melo, general ordenado a reprimir o levante baiano contra Portugal em 1821.

8.11.08

cobertura

(O pessoal do LA Times anda especulando que Jackson chorava mesmo é de arrependimento pelas gafes que cometeu durante a campanha de Obama, tipo ser filmado pela Fox News reclamando que Obama estava criticando a comunidade negra. Jackson era, até terça-feira, o candidato negro que tinha ido mais longe nas eleições presidenciais: venceu 11 primárias em 1987 mas perdeu para Michael Dukakis.)
O veterano ativista político Jesse Jackson participou das marchasde negros lideradas em 1965 pelo reverendo Martin Luther King, Jr.no Alabama, em protesto contra as restrições da elite branca ao direito de votar. Em 7 de março daquele ano, mais de 600 manifestantesque tentavam marcharde Selma, epicentro dos abusos,à capital do Estado, Montgomery, para apresentar petição ao governador, foram reprimidos com cassetetes e gás lacrimogênio. Apesar de a segregação racial ter sido proibida pelo Congresso um ano antes, negros que tentavam se integrar em lugares públicos no Alabama ainda eram sumariamente espancados.

Nesta terça-feira Jackson tinhao rosto banhado de lágrimasde felicidade, enquanto esperava, no Grant Park, em Chicago, pelo discurso de Barack Obama, então já considerado o primeiro negro eleito presidente dos Estados Unidos. Em dois longos anos de campanha, Obama, 47 anos, montou formidável máquina política e arrecadou US$ 640 milhões, a maior parte com pequenas doações, usando a internet habilmente para mobilizar milhões devoluntários que energizaram o Partido Democrata e conquistaram novos eleitores. Obama derrotou o arsenal político do casal Hillary e Bill Clinton na épica batalha das primárias, e se beneficiou da crise financeira gestada há mais de um ano e que explodira dois meses antes do pleito.

Obama e as platitudes

A mídia brasileira se empolgou mesmo com Obama pelo que tenho visto, e também li muitas críticas às eleições, como "mais do mesmo". Esse estranhamento é absolutamente natural diante das diferenças entre os dois países e do radicalismo da era Bush. Transformaram mesmo o homem no salvador da pátria. É muito cedo ainda para sacar como será a política para a América Latina. Mas também é iluminador descortinar o oba-oba que sempre costuma enfeitar esses momentos importantes na história.

Se seguir o padrão que vinha pregando na campanha, será mais protecionista e portanto desfavorável para a balança comercial brasileira; manterá o apoio a subsídios agrícolas americanos como a tarifa de 54 centávos de dólar por 3,8 litros de álcool brasileiro importado, sobre a justificativa de "dumping". Um agrado aí de uns 15 bilhões de dólares por ano para o setor agrícola do seu país.

A política inflacionária do Federal Reserve é realmente o mais preocupante se analisarmos as oscilações no mercado mundial nos últimos meses. Depois de um período de forte alta as commodities começam a cair, a exemplo do petróleo, que chegou a 145 dólares o barril no início do ano mas agora caiu pra 65. A irresponsabilidade do governo americano, que manteve os juros baixos em 2000 e incentivou uma bolha mundial de crédito, acaba custando caro para o resto do mundo. Acéfala, a ONU deveria estar mais atenta à crise alimentícia que enfrentamos este ano, mas o Conselho de Segurança virou uma farsa depois da invasão do Iraque, como atestam também as inúmeras guerras africanas. No Congo, há um senhor chamado Laurent Nkunda no qual devemos ficar de olho. Nkunda lutou na Frente Patriótica Ruandesa, inimiga do exército genocida do governo de etnia Hutu em Ruanda durante 1994. Sua facção guerrilheira controla a área do Parque Kivu, patrimônio da Unesco onde vivem os poucos gorilas remanescentes no mundo. Recentemente, Laurent enfrentou as tropas da República Democrática do Congo e das Nações Unidas na Batalha de Goma.

Historicamente, nenhum império conseguiu se manter em guerra e com déficit nas contas; o dos EUA é calculado em US$ 5 trilhões. O plano de Obama é investir 150 bilhões de dólares em pesquisa e desenvolvimento de fontes alternativas de energia, o que é bom pra todo mundo no planeta, não só para os americanos, que produzem 22% da energia mundial mas consomem 25%, principalmente petróleo e carvão. Tudo indica que a economia americana vai contrair sensivelmente nos próximos meses por causa da espiral recessionária. Os preços das commodities devem continuar estáveis, até porque dois a demanda chinesa deve desaquecer - o furor dos jogos Olímpicos foi muito mais do que belas cerimônias totalitaristas nos modernos estádios de Pequim. Após os jogos, a economia chinesa sentiu o impacto das ordens de fechar o parque industrial da capital para melhorar a qualidade do ar na região. Em paralelo, depois de o governo americano se manter fiel à ortodoxia neoliberal até o último instante, a casa caiu em Wall Street. Os dois países estão conectados pelo comércio mundial e o investimento chinês em títulos do Tesouro dos EUA, se um sofre o outro também sofre.

É sobre isso que é mais importante discutir quando se trata de pensar um caminho viável para a raça humana, uma alternativa a essa cassino de Wall Street, à essa sociedade do desperdício materialista. A não ser que chova sapos no Times Square depois de amanhã eu duvido que os EUA abandonem sua sua índola messiânica no curto prazo. O Sol sempre brilhava no império britânico, se dizia no início do século XX. Hoje a realidade é bem diferente. Eu pessoalmente prefiro Henry David Thoreau a Thomas Jefferson, e Billie Holiday a Ella Fitzgerald. Se democrata fuma maconha e republicano tem arma em casa é só uma mera curiosidade, uma platitude.

5.11.08

Obama é o novo presidente


31.10.08

Kafka Edições




30.10.08

Obama mais perto da vitória

A análise da Associated Press aponta vitória de Obama, com mais de 270 votos no colégio eleitoral (ou seja, tendo vencido o número de estados suficiente para atingir essa marca). O candidato democrata manteve os estados que John Kerry ganhou em 2004, e conquistou espaço em lugares que votam no Partido Republicano desde os anos 80, como Nevada, graças a uma campanha de base, ou "grassroots". Como o voto é facultativo nos EUA, parte do trabalho da campanha é eletrizar o eleitor para ir à urna.

Nos últimos dias, contudo, as pesquisas de opinião apontam recuperação de McCain entre os eleitores brancos sem nível superior. O preço da gasolina baixou de US$ 4 o galão durante o auge do verão para US$ 2,50, amolecendo a fúria de muitos motoristas de utilitários esportivos. Mas a economia está em frangalhos e o país luta duas guerras - a do Iraque, que evoluiu positivamente no último ano, e a do Afeganistão, que piorou e já ameaça se expandir para o Paquistão. Os militares americanos estão bombardeando o norte do país e a Síria com aviões teleguiados, leves e invisíveis ao radar. Pesquisa sobre o Vale Korengal, teatro das batalhas mais sangretas do conflito afegão.

No New York Times, Mark Leibovich acompanhou 11 comícios dos dois candidatos e de seus vices. Os mais cheios são os de Obama, seguidos dos de Sarah Palin (vice republicana), McCain e Biden (parceiro de Barack no "ticket").

“A lot of people on the other side just want free money,” said Susan Emrich, at a McCain-Palin rally in Hershey on Tuesday. A real-estate agent, she wears a T-shirt that says, “I’m voting for Sarah Palin and that White Haired Dude.” Ms. Emrich would like to attend another rally later that day in nearby Shippensburg, but can’t. “I have to work,” she explains. “I’m a Republican.”

There is an edge at Obama rallies, but it is less of frustration, more of fear. Those supporters worry that the election may be stolen from them, that race could skew against an African-American candidate, or that something unspeakable might befall Mr. Obama — but they will speak it nonetheless, in hushed tones.

Vou traduzir aqui o que dizia a camisa da corretora imobiliária citada acima, a Susan Emrich, de Hershey, Pensilvânia.


"Meu voto é na Sarah Palin
e no Cara da Cabeça Branca"
Aí me lembrei da mulher que vendia cerveja barata em seu apartamento no conjunto habitacional Parque São Brás em 2000 e tinha uma imagem em papelão, tamanho natural, do Antônio Carlos.

ANL

29.10.08

Achados e perdidos

29/10/2008 - 03h26
Mulher encontra maconha em banco de ônibus em SP
da Agência Folha

Uma passageira encontrou no banco de um ônibus um pacote com mais de meio quilo de maconha na noite desta terça-feira (28). Ninguém foi preso.

A droga estava no ônibus 5106, que faz a linha Terminal Princesa Isabel-Jardim Selma, zona sul de São Paulo.

Segundo informações da Polícia Civil, por volta das 21h30, a passageira encontrou a caixa ao sentar e entregou ao cobrador.

Desconfiado, ele e o motorista pararam ao ver uma viatura da polícia próximo à avenida Armando de Arruda Pereira. Além do meio quilo de maconha, havia dois invólucros de cocaína.

Caso registrado no 97º DP (Americanópolis).

"A hibernation is a covert preparation for a more overt action."

Ralph Ellison, "Invisible Man"

27.10.08

Fascist America, in 10 easy steps

From Hitler to Pinochet and beyond, history shows there are certain steps that any would-be dictator must take to destroy constitutional freedoms. And, argues Naomi Wolf, George Bush and his administration seem to be taking them all

25.10.08

Culture Wars

O WSJ publicou um interessante artigo na edição de hoje sobre os planos fiscais dos candidatos à presidência americana. Obama quer baixar os impostos, aumentando o número de cheques ao estilo "bolsa-família" para os mais pobres, enquanto McCain quer cortar os impostos para todos - inclusive para os ricos, que já pagam 35% e continuarão assim - Barack quer aumentar para 45%.

Então conversei ontem com meu avô e ele disse que está preocupado com a vitória de Obama. Ele é um velhinho de 90 anos, filho de imigrantes italianos, ex-empresário, republicano de ouvir a Fox News religiosamente. Mora num subúrbio de Knoxville, Tennessee. Eu lhe disse que o Obama não era isso tudo andavam pintando por aí, que seria muito mais pragmático do que ele pensa. Mas fiquei quieto quanto à socialização porque é isso mesmo. Se a desigualdade está aumentando, por que não redistribuir a parada?

Acho que talvez ele ainda esteja preso às guerras culturais dos anos 60, quando o país foi à loucura com o extremismo e os republicanos se aproveitaram do choque dos americanos moderados com o verão de 68 e inventaram que o sujeito médio de cidade pequena é o "verdadeiro patriota" e nós, esquerdistas de Nova York que tomam vinho importado e não comem na McDonald's, somos "a elite comunista". Parabéns Nixon, Karl Rove e Lee Atwater. Parabéns Reagan. Deu certo até a casa cair.

Mas rimos muitos com a situação do Chávez agora que o petróleo caiu de US$ 145 para US$ 65 o barril. A Venezuela anda com dificuldades para manter a luz acessa, então acho que o sonho neobolivariano da petroditadura socialista vai tremer nas bases - veja só, bastou o óleo cair pra a Argentina ter que confiscar os fundos de aposentadoria para cobrir o buracão que Chavecito não vai mais financiar. Os brazucas pelo menos ainda têm a pré-sal.

ANL

22.10.08

Death by lack of empathy

I've always been unable to cry, but now the tears flood my shirt. Office workers stare in atonishment at my sickly face. The coworkers don't know what to say, they seem baffled and anoyed at the same time. The tears become stronger, blinding streams of fluid that cause panic among the technocrats. The water flows with more and more vigour, it's staining the carpet, causing short circuits in the company machines. There's a salty river taking over the cubicles. People start to run, the fire department is called. In the end, the water dries, the electronic fires are contained, the workers start to return cautiosly. Hours later, the coroner writes in the report with his gloved, blood-stained hands: Cause of death: "unbearable self-contained pain/natural causes".

ANL

21.10.08

Trinity



As Los Alamos director J. Robert Oppenheimer watched the demonstration, he later said that a line from the Hindu scripture the Bhagavad Gita came to mind:

I am become Death, the destroyer of worlds.

Test director Kenneth Bainbridge replied to Oppenheimer, "Now we are all sons of bitches."

16.10.08

Poder y Negócios

Eu poderia escrever aqui sobre o meu entediante cotidiano ou sobre amores passados, mas eu quero mesmo é passar uma dica pra o pessoal que gosta de investir na bolsa e tirar rendimento todo mês: não rola. A Bovespa caiu 40% porque a maior parte dos investidores é de natureza especulativa. Se houvesse pessoas dispostas a investir na empresa mesmo, como deveria ser, o índice não cairia tanto. Os urubus do mercado já estão sentindo o doce aroma da massa putrefata dos bancos.

Estamos no meio de um pânico no mercado. Fala-se muito de Grande Depressão II, mas o mundo é muito mais rico hoje que naquela época. Chávez pode espernear quanto quiser, e os urubus da hora podem decretar o fim da hegemonia americana, mas esta crise revela justamente o contrário, a dependência mundial do sistema financeiro americano. Mas, de fato, as nacionalizações de bancos representam um passo à esquerda, ou ao socialismo, para alguns dos países mais capitalistas do mundo.

Nos EUA, o candidato da esquerda está à frente nas pesquisas. Ontem (16/10) foi o último debate e mais uma vez Barack Obama demonstrou segurança, sangue frio e inteligência. McCain não é nenhum monstro, mas está atrás nas pesquisas porque nada como morder o bolso dos americanos para promover uma mudança de governo. O país estará em boas mãos, diferentemente da eleição para prefeito em Salvador, em que os eleitores acabaram com duas mórbidas escolhas: o pior ou o menos pior, eu presumo, até porque não conheço Walter Pinheiro. Mas com João Henrique, só posso recomendar uma coisa: chora, minha Bahia, chora.

P.S: o título do post é uma homenagem ao amigo mexicano Rafael Carballo.

10.10.08

A natureza do caos



Kal's cartoon, do Economist

9.10.08

Agridoce

A vida no exílio é agridoce, como toda vida deve ser. Quando a saudade amarga demais se começa a cavoucar entre os grãos para produzir banquetes de feijão gorduroso; São dias de trabalho e reviravoltas, de grandes oportunidades efêmeras que se dissolvem em questão de horas. E a atmosfera de pânico, incruada nas torres que admiro entre um cigarro ou outro, do outro lado do rio. Wall Street anda vazia esses dias. Todos parecem satisfeitos demais em criticar a própria queda, quando poderiam enxergar a luz de toda essa loucura. Assisti satisfeito ao circo pegar fogo desde o ano passado mas esse prazer amargou nos últimos dias. O governo americano está se debatendo desesperadamente para conter o colapso do sistema financeiro mundial: descobriram que aquele dinheiro todo não existia. Há uns quinze dias, começava a esfriar e a televisão não parava de chiar com falências astronômicas de baluartes do sistema. Desliguei o aparelho, sentamos à mesa. O Natal será difícil em 2008, disse minha mulher, esfregando os olhos.

A Média Industrial Dow Jones já retrocedeu para onde se encontrava antes de Bush assumir a presidência. Os americanos reclamam que suas contas de aposentadoria, cujo rendimento arriscado foi achatado pela crise, perderam US$ 2 trilhões nos últimos quinze dias. Ninguém sabe onde vai parar esse buraco. A nacionalização mundial dos bancos pode ser um golpe de humildade importante para a megalomania dos materialistas, mas também ameaça causar uns cinco anos de estagnação dolorida. Os brasileiros pelo menos já estão acostumados.

Benjamin Graham, famoso professor de economia, foi um dos principais proponentes do investimento de longo prazo, em que se busca dividendo e o acionistas realmente
acompanham o desempenho da empresa. Warren Buffett, o segundo homem mais rico do mundo, famoso pela modéstia e frugalidade, é um de seus discípulos. Graham dizia que o "Mr. Market" é um cara estranho, volúvel, que todo dia aparece na sua porta oferecendo um preço diferente para compra e venda, e o melhor a fazer é não se atazanar com tanta amolação.

Lula está vivendo no país dos sonhos e por isso mesmo mente gostoso. A crise bancária não afetou as grandes instituições brasileiras, recheadas de depósitos, mas dificultou pra muito banco médio e pequeno refinanciar suas operações de crédito. E crédito, porra, foi o que disparou o Brasil esse ano. O Globo chegou a dizer que os grandes bancos estavam tentanto forçar as piabas a vender carteiras de crédito na bacia das almas, a.k.a. fucking cheap. Pra frente, Brasil.

Já faz quinze dias que o formulário de registro para votar nas eleições presidenciais está juntando poeira na mesa. Tenho assistido aos debates avidamente mas evito defender qualquer candidato. Eu gosto mesmo é de atacar Sarah Pailin. Eu respeito McCain e já senti admiração por seu passado heróico, mas não acho que ele tenha a capacidade de compreender os frenéticos desafios da era. Obama é muito mais confortável na manta de reformista. Caso vença as eleições, como prevêem as pesquisas, Obama representaria um notável marco na evolução das relações raciais nos Estados Unidos e no futuro da nação como um todo, há apenas 50 anos do movimento dos direitos civis e Martin Luther King Jr. Mas Obama pode ser uma merda. Faz um ano que acompanho essa eleição e Obama me parece muito mais um cara conciliador, centrista, do que esse bicho perigoso que os republicanos andam pintando por aí. Oremos para que o destino não depósite no julgamento de Sarah Palin, a caçadora de alce do Alasca, a decisão final de vaporizar ou não o Irã.

ANL, o vampiro da lâmpada fluorescente.