28.11.06

Cole Porter



Night and Day

Like the beat beat beat of the tom-tom
When the jungle shadows fall
Like the tick tick tock of the stately clock
As it stands against the wall
Like the drip drip drip of the raindrops
When the summer shower is through
So a voice within me keeps repeating you, you, you

Night and day, you are the one
Only you beneath the moon or under the sun
Whether near to me, or far
Its no matter darling where you are
I think of you

Day and night, night and day, why is it so
That this longing for you follows wherever I go
In the roaring traffics boom
In the silence of my lonely room
I think of you

Day and night, night and day
Under the hide of me
Theres an oh such a hungry yearning burning inside of me
And this torment wont be through
Until you let me spend my life making love to you

Day and night, night and day

21.11.06

Primeiro poema automático em solo baiano

dia: ondas engolem os raios do sol,
e nada mais.

noite: céu e mar se confundem
num único negrume,
só restam as pessoas,
tentando imitá-los,
e nada mais.

(wc)

20.11.06

Sketches

Nome: Apolíptico
Tema: Decadência e impedância do Império
Protagonista: Z - um cidadão do império
Cenário: Grande metrópole, the Trans-Hudson Port Authority
Sub-temas: falta de sistema de saúde, negação, acomodação, solidão, amor, impostos, capital cruel, morte, vida, sobrevivência, poluição, amor distante.

3.11.06

BLUE EYES



My Way
Co-written by Paul Anka & Frank Sinatra
As performed by Frank Sinatra
Hit # 27 on the Top 40 charts in 1969

And now, the end is near, and so I face, the final curtain.
My friend, I'll say it clear,
I'll state my case, of which I'm certain.
I've lived, a life that's full, I've traveled each and every highway.
And more, much more than this,
I did it my way.

Regrets, I've had a few, but then again, too few to mention.
I did, what I had to do, and saw it through, without exemption.
I planned, each charted course, each careful step, along the byway,
and more, much more than this,
I did it my way.

Yes, there were times, I'm sure you knew,
When I bit off, more than I could chew.
But through it all, when there was doubt,
I ate it up, and spit it out.
I faced it all, and I stood tall,
and did it my way.

I've loved, I've laughed and cried,
I've had my fill; my share of losing.
And now, as tears subside, I find it all so amusing.
To think, I did all that, and may I say --- not in a shy way,
"Oh no, oh no not me,
I did it my way".

For what is a man, what has he got?
If not himself, then he has naught.
To say the things, he truly feels,
And not the words, of one who kneels.
The record shows, I took the blows ---
And did it my way!

I did it my way.

14.10.06

Vida Noturna

A gripe já batia em retirada, sentia-me melhor, dois dias de superalimentação fizeram a diferença. Tranco tudo em meu quarto no hotel-cortiço, visto o casaco de couro, cruzo com um dos serial-killers de plantão na escada, enlouquecendo aos poucos nos cubículos fedorentos, ganho a rua, o vento sopra da Baía de San Francisco. Na primeira esquina, colado com uma loja de DVDs pornógraficos, encontro Reginald, um negão estrábico com aquele olhar perdido dos sem-teto.
- E aí?
- Na luta. Tem um cigarro?
Passo o maço de Marlboro Lights, meu veneno de 5 dólares.
- Vai fazer o quê hoje? – pergunto.
- Sei lá. Tomar uma sopa no Exército da Salvação. Três dólares ajudariam...
Simulo uma expressão de “desculpe, estou sem grana” e me despeço dele. Anotação mental: tomar cuidado com os sem-teto. Sempre estão em busca de algo, nada é gratuito, nem a amizade. Mais dois quarteirões, chego à esquina da Rua Folsom com a Sexta. Mais sem-teto, flanando diante dos edifícios de moradias subsidiadas.
- Você tem um cigarro? – pergunta uma negra de obesidade mórbida. – Hoje é o meu aniversário, você não tem um dólar pra me ajudar?
No começo é pitoresco, mas depois de uma semana enche o saco. Simulo outra expressão de compaixão e sigo em frente. Eu também estou desempregado.
Iludido pela noturnidade precoce da farra americana, chego cedo demais na boate que anunciava dancehall e reggae. Os organizadores me recebem na porta e indicam um bar do outro lado da rua pra tomar uma cerveja enquanto a música não começa. Clássico: balcão com luz indireta, um DJ rodando música eletrônica. Tomo uma cerveja Stela Artois, deliciosa e cara, depois de apresentar minha identidade – menores de 21 não têm vez nestas bandas.
Um casal bebe ao meu lado, conversando animadamente. Faço amizade com eles, conto minha história, faço minha jogada em busca de um pouco de companhia; aquela música do Cazuza não poderia estar mais errada: “viver é bom, nas curvas da estrada. Solidão, que nada...”.
O casal que puxei papo são irmãos. O cara, Larry, constrói cenários para uma prestigiada companhia de teatro local. Amistoso, mostra fotos dos cenários no celular. Teço elogios sinceros: “parece pedra mesmo”. Saímos para um cigarro no frio noturno, enquanto um grupo de mexicanos dá uns tapas na pantera diante de uma viatura do departamento de Polícia de San Francisco, um “cruiser”. O policial parece entediado. Larry puxa papo com os mexicanos, que vieram de Richmond, subúrbio do outro lado da baía, uma das cidades do anel de violência e pobreza anglo-saxã que cerca a pungência turística de San Francisco. A situação começa a ficar perigosa: o cruiser toca as sirenes, o famoso “peouw...”, o aviso breve e sonoro. Os mexicanos entram no bar, um por um. Me despeço do último, com a indumentária fantástica e original dos despossuídos americanos: boné de lado, roupas esportivas, calça folgadona e tênis espaciais.
- Valeu cara, tudo de bueno.... – arrisco meu espanhol macarrônico.
- Yeah man, see you... – e entra no clube. Respiro fundo. É meia-noite, auge da vida noturna. O frio treme minhas pernas. Volto para dentro. O leão de chácara, um negro claro e de fala rápida, metralha algo para uma garota menor de idade:
- Você vai me matar comissoaí gata, identidade falsa pode medarcadeia...
Acima, os edifícios de escritórios brilham com a vibração das empresas de Internet trabalhando: Google, CNET, dezenas de empresários iniciantes com os olhos vidrados de anfetaminas e programas de computador enquanto o asfalto pulsa, como se estivesse à espera do grande terremeto que um dia reduzirá tudo isto aqui a escombros fumegantes.

10.10.06

The Port Authority of NJ & NY

Deslocamento rápido de San Francisco para Detroit, escala, cara a cara com a decadência industrial americana - um aeroporto com tapetes imundos, feiúra generalizada, desemprego. Carros baratos no Detroit Free Press, espécie de A Tarde anglo-saxão.

Mais um pulo, voando sobre o Lago Michigan, oceano lacustre de poluição e vida. Na grande maçã, ajuda peremptória de um negão-brother. Shuttle para lá e para cá, até o sono restaurador no Howard Johnson, motel-humano à beira da rodovia absurda, ponto nevrálgico da economia desta nação imperial. Indianos, chineses, negros, brasileiros, espanhóis, latinos, filipinos, o mundo em uma dobra do mundo, entre o Rio Hudson e o Oceano Atlântico.

Numa lanchonete imunda em Jersey City, peço um hambúrguer gorduroso. A garçonete gorda, de maquiagem pesada, discute com um negro-dreadlock - "Eles deviam bombardear a porcaria da Coréia do Norte". O negro-dread não se incomoda, discute. Depois vai embora. "Esse é o problema com os homens americanos, eles perderam as bolas...".

Volto para o hotel. Amanhã é o grande dia, tudo ou nada nesta terra de imigrantes, a melhor chance de um ganha-pão até agora. Do lado de fora, a temperatura cai.

7.10.06

Hotel CW

Entre os viciados em crack e os fracassados, achei meu lugar num cantinho frio da Rua Folsom, perto das vendinhas de chineses e dos bares de lesbicas punk. Roubaram meu shampoo mas estou bem.

KDK

28.9.06

AMIGAS DA CÍNTIA

Polonesa dava maconha a suas vacas para mantê-las tranqüilas

"A Polícia da província polonesa de Szczecin descobriu que uma camponesa da aldeia de Lobza cultivava maconha e que, como a mulher explicou às autoridades, dava a droga a suas vacas, misturada com a ração para gado, para tranqüilizá-las.
Os policiais que descobriram e destruíram a plantação de maconha disseram que a camponesa de 55 anos se mostrou uma grande agricultora, já que os pés de maconha tinham mais de três metros de altura.

Os especialistas do laboratório da Polícia que analisaram as plantas asseguraram que continham uma grande quantidade de narcótico de alta qualidade. "Minhas vacas, não sei por que, são muito loucas, sempre estão dando pulos e correndo. Uma delas em certa ocasião fraturou meu braço", explicou a camponesa.

A mulher contou esses "problemas" para alguém, que a aconselhou a dar um pouco de maconha para os animais ficarem tranqüilos.

A camponesa comprou as sementes da maconha em um mercado, as semeou e cobriu o lugar com um plástico, para que ninguém visse a plantação, porque não queria perder seu "remédio".

"Tenho que reconhecer que se trata de uma solução estupenda, porque desde que lhes deu a primeira porção de maconha minhas vacas estão como cordeirinhos", explicou."

fonte: http://noticias.terra.com.br/popular/interna/0,,OI1163030-EI1141,00.html

26.9.06

beatiful day

It`s fun to watch the colors babe, not the colors in the movies, but the blue in the sky, or the sandy quality of the earth, maybe just the skin tone of the Mexicans strolling down the street, trying to look dangerous. They’re probably as scared as me, taking the empty sidewalk while the cars zoom by, fast, fast, so fast that they even think where to go – just drive.

So today I had an actual job interview – me, a Latina, a black guy from Texas and a middle aged woman with strange, luminous ideas. While we where waiting for the presentation on how to get as much money as we can for the Democratic National Committee, she just stopped for a moment, took a good look at our faces, and said:
- You know, we’re just like a rainbow, if we could work together, each of us could approach a different kind of person…

Fifteen minutes later, I got the job and walked home all satisfied with myself. It`s a kind of weird how I can make exactly the impression that I want, but can’t control it. Now I`m all fired up, watching American television (ads about who to vote for attorney general or no on proposition 86 – whatever that means).

Doc, I dream so much now that reality struck me with a 2 by 4. I’m scared because I can’t control them. Do you think that I’m gonna be ok? You know, I can`t sound cool like these other guys. I’m just a normal person, I guess. Can I go now?

Victor Taylor (aka ANL)

22.9.06

Wlad abandona a cidade feia e ruma peremptoriamente rumo à cidade da orla crepuscular.

Este post é pra vc, Robocop. PARABÉNS E FELICIDADES!

Senador (mas meu nome não estava no dossiê)

11.9.06

A ópera apoteótica do profeta operário

Por Wladimir Cazé
wladimircaze@gmail.com
&
Toni Couto
tonicouto@hotmail.com



Entre luzes chapadas e microfonias ensurdecedoras, surge o profeta Tom Zé, com sua inteligência verbal e sua extravagância tropicalista (sim), na Concha Acústica do Theatro Castro Alves, em Salvador, numa tarde de domingo, ao terceiro dia de setembro do ano de 2006. O senhor gabiru de quase 70 anos começa a bradar pelo microfone suas ladainhas para jovens cabeçarati, rastafaris culturais e remanescentes da 5ª Parada Gay de Salvador. A banda aparece e a primeira música do show é "2001", música gravada pelo menestrel de Irará em 1968, em parceria com Os Mutantes.

Tom Zé diz:

- "Pára tudo. Agora vamos tocar a opereta-pagode. Esse show é do meu CD do ano passado: ‘Estudando o pagode: na opereta segrega mulher e amor’. Resumo da história: o homem está desanimado, andando maltrapilho, macambúzio. A mulher ficou independente, muito exigente. É por isso que o homem aqui está vestido de mendigo."

Ele aponta para Jarbas Mariz (percussão, cavaquinho). Fala:

- "Tá vendo esse sujeito? Tem cabimento um músico se vestir assim, um marmanjo desse?"

Justamente por nada ter cabimento é que o “mendigo” Tom Zé está ali, um brasileiro que o povo conhece bem! Entretanto, é curioso que a pobreza só tenha conquistado alguma apreciação no universo cult através de um porta-voz que precisou recomeçar sua carreira nos Estados Unidos para se realizar profissionalmente enquanto autêntico compositor maldito da música popular brasileira.

Seguem-se as harmonias tensas e aparentemente caótico-dissonantes que o ex-aluno de Koellroutter e de Smetak na Escola de Música da Universidade Federal da Bahia criou para as composições da opereta-pagode. Canções difíceis, onde diversos ritmos de samba comparecem radiografados pelos sismógrafos da vanguarda e do repentismo atemporal. Entreouvimos estilhaços de samba-de-roda, samba-canção, samba-enredo e bossa nova (citados na letra Antonio Carlos Jobim, Baden Powell, Vinicius de Moraes, Menescal, Nara Leão).

Ele aponta para Luanda (vocal) e Cristina Carneiro (voz, teclados). Fala:

- "A mulher, não! A mulher aqui na ópera está vestida de operária!"

O argumento encenado prossegue, o homem propõe um tratado de paz com a mulher, para que vivam juntos. Brigam de novo. Nova reconciliação. Segue o baile.

A partir de um momento que não conseguimos lembrar, Tom Zé dá início a uma sequência de canções do disco "Estudando o samba" (1976), reconstruído em comemoração a seu aniversário de 30 anos: "Hein?" (Tom Zé/Vicente Barreto), "Tô" (Tom Zé/Elton Medeiros), etc.

- "Em outubro deste ano, eu completo 70 anos! Vamos comemorar!"

A saga melódico-sentimental continua com um belo apanhado de composições conhecidas no universo cult. Pelo menos uma delas foi a pedido do público, a gritos e palmas: "Parque industrial" (hino tropicalista gravado duas vezes em 1968: em "Tom Zé", seu primeiro álbum individual, e no antológico "Tropicália ou Panis et circensis", com Gal, Caetano, Gil, Duprat, Mutantes, Nara et alli.):

- "Retocai o céu de anil
Bandeirolas no cordão
Grande festa em toda a nação.
Despertai com orações
O avanço industrial
Vem trazer nossa redenção.


Tem garota-propaganda
Aeromoça e ternura no cartaz,
(...)

(...)
Porque é made, made, made, made in Brazil!!!.
"

Tom Zé de novo:

- "O Ministro da Cultura Gilberto Gil me convidou para fazer um discurso na ONU e eu vou fazê-lo aqui, para ver se vocês aprovam” - anunciou o velho profeta, às vésperas das eleições, prestes a rasgar seu terno de velcro durante a apresentação da música-discurso ‘Politicar’, do disco ‘Com defeito de fabricação’ (1998).

Tom Zé de novo:

- "Pára, que essa música já tá chata! Vamos tocar outra!”

Mais do que maestro do espetáculo, o comandante do palco se anima mais ainda e lança um desafio para o público:

- "Todo mundo diz que baiano é inteligente! Quero ver agora! Vamos compor uma estrofe AGORA! Se preparem!"

Na velha tradição do improviso!!?? Nos perguntamos, já arriscando adivinhar o tema musical que ele escolheria para pôr mote. Era... como é mesmo o nome? “Jimmy renda-se”: “Lá-lá-lá-lá-lá-lá-lá láááá!...” Que letra será que ele vai cantar em cima?...

A tarde parecia não ter fim, consideradas a quantidade de bis concedidos e a disposição física e criativa do artista, que gesticulava e se movimentava sem parar. Mas promessas ficaram não-cumpridas, a música que ele propunha que criássemos coletivamente naquele exato momento teve que ser adiada, porque a produção avisou que o horário estava encerrado, encerrado, encerrado...

A galera ficou com um gostinho de saudade na saliva, misturado com a realização de ter presenciado uma apoteose rara.

Vale ressaltar que, para participar do evento, foi necessário doar um livro e que Tom Zé fez questão de fazer sua doação no palco, entregando o seu “Tropicalista lenta luta” (publicado em 2003) – por sinal, uma ótima dica de leitura para quem quiser sentir a presença do artista durante mais algum tempo.

28.8.06

O GELO E A FÚRIA

1 A colônia

O inspetor-geral já deve ter lhe informado sobre as características gerais de nossa operação nas luas de Saturno. O alinhamento das estações retransmissoras também pede brevidade; em uma hora, a interferência de Júpiter enfraquecerá esta linha dedicada. Cheguei à Base Titã há 5 dias, 8 horas e quarenta e dois minutos, vindo do Cinturão de Asteróides, um engajamento discreto de módulos com alta velocidade. Atravessamos a atmosfera de Titã numa cápsula retornável e fomos recebidos pelos 10 técnicos coloniais, aparentemente felizes. A válvula principal da planta de eletrólise de metano estava quebrada. Aguardavam novo comboio para continuar a extração. Enquanto isso, o Contra-mestre Adolfe mostrou-me os vistosos domos hidropônicos das instalações subterrâneas aquecidas. Reciclando pedaços do módulo de pouso, eles construíram mais uma sala de convívio, onde ganhamos aposentos eu e meu assistente, Jonas. Depois descobri que pretendiam nos vigiar, mas fornecemos a eles a exata idéia do que esperavam: dois fiscais burocratas e medrosos.

O objetivo de minha visita surpresa era identificar o motivo do segundo problema mecânico em um ano de colônia extrativa, com a mesma peça. Os gerentes acusaram falha hal no sistema lógico do módulo-mãe, mas recuaram diante das leituras de vigilância normais. Como uma válvula feita de Titânio e resistente a -250 centígrados quebra duas vezes? Os fornecedores garantiam sua excelência. A válvula defeituosa impedia a extração de metano para os rebocadores do Sistema Solar Interior, Marte e Terra, comunidades crescentes, ávidas por substâncias de fusão e conversão. A redundância é um fator a ser analisado.

O Contra-mestre conduziu passeios agradáveis pela costa de Adiri, as planícies de gelo escuro. No último dia, fizemos uma reunião alegre e declarei que meu relatório seria favorável à manutenção da colônia. Eles demonstraram alívio, cumprimentaram a minha decisão e traçaram planos para ampliação da planta, com o material de reserva do pacote inicial do módulo-mãe. Mais tarde, na sala supostamente vigiada, simulamos um entendimento mútuo sobre a idoneidade dos colonos vigiada e, depois do sono regulamentar, iniciamos os preparativos para a decolagem e nosso retorno ao conforto espaçoso dos escritórios centrais de Marte.

2 Verna T.

A fraca luz alaranjada pouco atravessava a neblina de metano e gelo de água, etéreo nitrogênio inerte, nos poucos momentos permitidos de observação real, embaçando a escotilha da unidade mecanizada, eu tremia de medo da radiação e vibrava com a oportunidade de observar o mundo alienígena, pois eu vivia na colônia, escavada a 300 metros no solo esponjoso, com seu calor exíguo de pouca companhia humana, notícias distantes e atrasadas, interferências magnéticas, a estação simplificada sob minha responsabilidade. Paredes de aço sempre a 20 graus nos corredores de labirinto cinza, monitores econômicos, rotina espartana, ar-condicionado. Acordamos quando o bip ordena (almofadas sintéticas) comemos quando a máquina processa a pasta nutritiva, quedamos refúgio ao último nível durante tempestades solares.

As coisas mudaram quando fui ajudar James C., durante um defeito na válvula de eletrólise, a 3 km da colônia. Petti Amazon, a chefe da ala nerd dos cientistas pesquisadores, os mais aplicados dentre os três grupos de trabalho, acusava James C. de ser um caráter duvidoso, caso provável de insanidade, um coringa que deveria voltar para a Estação Cinturão no próximo semestre, mas ele fez amizade com James Tiptree, o botânico, e ganhou o resto dos colonos graças a uma evolução significativa do cardápio. Ele introduziu folhas e frutos na dieta. Agradou em especial o Contra-mestre, vegetariano ávido, pouco entusiasmado com a pasta nutritiva regulamentar.

Encontrei James C. na pequena cabine climatizada do controle, perto do calor das máquinas, no centro do domo simplificado que abriga os condensadores de metano e as escavadeiras. Pareceu tranqüilo quando lembrei do avanço das horas. Logo começaria a noite gelada, Saturno engolindo o céu e -200 abaixo de zero durante quinze dias.
- E o defeito?
- Não há defeito na válvula. Você conhece os Luditas?, disse, e pediu que me acomodasse na esteira de cânhamo para poder explicar melhor.


3 A farsa

Jonas ativou os códigos ocultos, enganando os sensores dos colonos com uma decolagem falsa, transmitida pelo anulador de sinal. Protegido pelo chumbo-traje, aproximou-se da colônia para instalar receptores secretos. Enquanto isso, à minha frente, na cápsula, os monitores exibiam os primeiros dados obtidos pela farejada eletrônica de Jonas: os diários oficiais, os particulares e o Registro Geral, última instância de sabença vigilante. As capas concêntricas de dados floresceram na revelação daquela história singular, de um indivíduo chamado James C., mecânico, que trouxe livros inadequados em sua bagagem privada, na primeira leva. Por meios pessoais, C. introduziu o cultivo de cânhamo nos domos hidropônicos.

Seu primeiro aliado foi a oficial de comunicações Verna T. Eles catequizaram os outros colonos, reduzindo as atividades de operação da planta extrativa e de escavação dos tanques recipientes. Munido com a dialética libertária de um jamaicano negro, James C. convenceu os outros a mudar de perspectiva sobre o seu papel neste mundo gelado. Diante da disponibilidade de elementos (água, metano) e a auto-suficiência da usina de clonagem nos domos hidropônicos, poderiam declarar independência, com prejuízos possíveis para a Corporação. Através das escutas, acompanhei o nervosismo dos colonos depois da falsa decolagem. James C. argumentava pela declaração imediata de Zona Autônoma Temporária, transmitida para a internet pelo satélite de emergência Cassini. O Contra-mestre, os cientistas e os outros mecânicos, mais conservadores, pediam pela continuidade da farsa.

Depois da reunião amarga, Verna T. detectou o chumbo-traje de Jonas afastando-se da entrada da colônia. Jonas não teve opção senão eliminar Verna T. Seu desaparecimento causou ainda mais preocupação entre os colonos. Hoje, um elemento desconhecido derrubou as escutas instaladas por Jonas. Alguém está nos vigiando. Podemos partir a qualquer momento, mas a nova posição em órbita enfraqueceria nossa vantagem estratégica. Eu e o inspetor-geral concordamos que a colônia ainda pode ser retomada com negociação psicológica, antes que vire um escândalo.

4 Babilônia

Os espiões continuaram estáticos nos primeiros dois dias, então decretei a colônia uma Zona Autônoma Temporária; o paralelo 35 tornou-se Zubrin, nossa primeira cidade. Os cientistas hostilizaram imediatamente a Zona, mas continuaram seguindo as ordens do Contra-mestre, leal à revolução. No terceiro dia, a cápsula dos espiões decolou e tudo pareceu voltar à normalidade. A colônia abandonaria a produção de metano e dedicar-se-ia à colonização de Titã em bases libertárias.

Mas uma nova cápsula pousou e conhecemos Aleph, o simpático negociador, que ofereceu o dobro do salário se os colonos abandonassem sua demanda por autonomia. De início, os legalistas não deram sinais de abandonar o plano, mas um movimento rápido e me jogaram na saída externa. “Morra você e sua doutrina ridícula”, gritou Petti do outro lado, a abestalhada. Eu escondera um fino traje de vácuo na saída; tive de roubar um jipe para buscar refúgio na planta de metano.

Pode parecer fácil para alguém como eu, abandonado a bilhões de quilômetros da Terra, com o frio aumentando à medida que as baterias evaporam o último caldo, recitar novamente toda a dialética da minha revolução; mas a solidão exige disciplina e, ironicamente, minha sobrevivência depende agora da restauração da peça que fingi estar quebrada, a mentira que paralisou as atividades capitalistas dos colonos. O espião não sabe que eu também monitorei suas transmissões, então eu tenho dois rifles magnéticos e muitos cobertores. Iniciei os trabalhos de engenharia reversa. Estou tentando construir um domo hidropônico.

Através da Cassini, criei um website e uns caras em Bangkok acham que podem entrar com uma ação na Corte Internacional de Justiça, argumentando com base um tratado da ONU de 1969. Enquanto isso, eu os outros mantemos uma distância respeitável, exceto quando eu volto secretamente à base para reabastecer com víveres do velho Tiptree. Há até muitas órfãs querendo vir para cá me ajudar na colonização, mas o governo nega passagem, me boicotam, a Virgin Galactic se recusa a voar para cá.

KDK

24.8.06

breve o PRÓXIMO CAPÍTULO

12.8.06

Ligações Peptídicas

Já viu, Curiosidade? Novos aparatos eletrônicos, ansiedade em links, descoberta em caminhos labirínticos, cuja volta é irreversível. Espelhos cilíndricos e frases prontas. Um aviso no topo da página: outdoor virtual, sem cores, mas com o mesmo apelo. Espaços, toques ligeiros e letras trocadas. A intenção? Só constar mesmo, pois é tudo insosso. Minhas mãos transpiram e o mouse arrasta a poeira do móvel descascado. A luz sinaliza que alguém clama pela minha atenção. Ignoro o recurso, retomo a escavadeira em pixels. Olha só o contorno desse rosto. Qual seria o programa? No outro, só os olhos. Truque de quem se engana e acha que está menos qualquer coisa. Tá não. Arrasto a ferramenta, e olha lá. Ninguém arrisca algo menos qualquer coisa. Tudo é verbo flexionado em primeira pessoa. Adjetivos fermentados e arrotados ao vento.
E ainda me perguntam: por que não?
Olhe essas linhas e veja o que é possível apreender. Nefasta lacuna. Conhece o cabelo bisonho da cor de raposa fugidia, o inseto do cinema que brilha ao furar a luz do retroprojetor, o caroço da manga sem cabelos, o carro de goma de mascar, a sopa de joanetes, a fruta areada na descrição de Hemingway, o cheiro goguento, a vergonha flamejada, o aconchego insípido e as marcas de cal virgem? Relações de transgenia. Mendel não previu, mas na permuta do amor, o gene é recessivo (aa). Nesses tempos, o medo é persecutório e a felicidade, lotérica. E há quem busque o trevo de quatro folhas, ou se agarre a um pé de coelho, ou a todas aquelas mandingas das quais se é refém, quando se respira este ar matizado de cores.

21.7.06

O Diário de Dang Thuy Tram

1

Doc Phu, 1970

- Não queime este aqui. Já tem fogo dentro dele. Os olhos inexpressivos do tradutor Hieu se espremeram num movimento de dor. O barril na minha frente cheirava como gasolina rançosa e cinza de celulose na selva calcinada de Doc Phu. À primeira vista, o livrinho não parecia de grande valor estratégico: capa de couro manchada de sangue e letra miúda em vietnamita. Atendi ao pedido de Hieu. horas depois, deixamos o campo de batalha fuliginoso, com cheiro de nitratos, rumo à segurança relativa de Saigon.

Nos intervalos dos interrogatórios de prisioneiros, Hieu trouxe alguns livros vietnamitas, com o propósito de ensinar-me um pouco de sua língua. Afastei as cartilhas e pedi que traduzisse o diário. Começamos devagar, mas em poucos dias a história da doutora do Exército Popular do Vietnã Dang Thuy Tram ganhou mais detalhes. Tinha 27 anos; nasceu em Hanói, numa família próspera de médicos, voluntária no campo de batalha da Província de Quang Ngai desde 1967. O diário começa em 1968, logo depois da ofensiva Tet. O resto nós completamos: morta com um tiro na testa durante ataque ao acampamento do hospital, enquanto dava cobertura para a fuga dos seus pacientes. Não respondeu aos gritos de “chieu hoi” (largue as armas). A encontramos com um rifle SPK enferrujado e uma bolsa de lona onde guardava o diário.

Uma noite, após horas de interrogatórios exaustivos, tomamos umas cervejas e Hieu me mostrou a transcrição que fizera da abertura do diário: “Tive de fazer uma operação de apêndice sem analgésicos. Só alguns tubos de novocaína, mas o soldado ferido nunca chorou ou gritou. Ele continuou a sorrir, me encorajando. Vendo o sorriso forçado em seus lábios secos e imaginando a fatiga, senti pena. Alisei seu cabelo suavemente. Gostaria de dizer: pacientes como você, que não posso curar, são os que me causam mais tristeza, e sua memória nunca fenecerá”.

2

Saigon, 1971

Eu passei por todas as investigações para ocupar meu posto na Inteligência no Exército dos EUA. Era um candidato ideal a combater o comunismo, como o filho de uma família militarista, voluntário da pátria, americano leal e crente na teoria do aterrorizante efeito dominó.

Por isso, não desconfiaram quando investiguei os registros, pouco depois de encontrar o diário, e descobri que Tram foi assassinada propositadamente, para infligir um golpe à moral dos vietcongues locais. Antes de morrer, ela já era uma heroína para os insurgentes. Naquela noite, pela primeira vez, não consegui dormir e levantei-me com os olhos inchados para o chiado das turbinas de um B-52 sendo carregado com 27 toneladas de bombas.

Troquei as moscas, a rádio Voz da América e a cerveja Lon-Pin pelo estudo da língua vietnamita, traduzindo trechos do diário sem o conhecimento de meus superiores. Eu sabia que eles me acusariam de simpatizar com o inimigo, até reconhecia na garota certos traços do que os colegas na inteligência chamavam ideologização socialista de Ho Chi Minh, mas o purgatório de Tram passou a ser o meu também, à medida que a curiosidade deixou de ser uma desculpa convincente até para mim mesmo.

Enquanto os bombardeios americanos aproximavam-se diariamente do hospital de batalha, Dang Thuy Tram escreveu que “a morte estava tão perto, as bombas desnudaram as árvores e despedaçaram casas. Aquele cachorro do Nixon é um tolo e um maluco em ampliar a guerra. Somos todos humanos, mas alguns são tão cruéis que querem o sangue dos outros para regar a sua árvore dourada”.

3

Dallas, 2005

Acho que foi quando comecei a ler o diário de Dang Thuy Tram é que meu respeito pela autoridade começou a desintegrar. Depois, ao sair do exército, juntei-me ao FBI e denunciei a corrupção no laboratório onde eu trabalhava, até que o governo ou o anticomunismo não significassem mais nada e o choro de todas as noites de cadáveres dilacerados e execuções sumárias se dissipasse o suficiente para que eu voltasse a existir. Falei do diário, mas os repórteres só estavam interessados nos podres do birô federal de investigação.

Dois dias antes de morrer em confronto com as tropas americanas perto de Duc Pho, Tram escreveu pela última vez para o misterioso M., que supomos ser o seu namorado perdido: “Não sou uma criança: já estou crescida e forte em face das dificuldades, mas neste instante, o que quero é a sua mão a cuidar de mim, ou de um amigo próximo, ou apenas a mão de uma pessoa que eu sei que é boa. Por favor, venha e segure a minha mão quando eu estiver tão solitária. Ame-me e dê forças para atravessar as partes difíceis da estrada adiante”.

Meu irmão sugeria que doasse o diário para uma biblioteca, um repórter do Washington Post me dizia que seria impossível encontrar a família Tram, mas, trinta e cinco anos depois, tive a honra de devolver os diários à mãe da jovem cirurgiã, no Vietnã, onde eles viraram um sucesso instantâneo, vendendo mais de 400 mil cópias. Para mim, continuram sendo um relato da ideologia com face humana, de alguém amaldiçoado pela história. Não me orgulho de ser o agente de sua redenção.

Nos últimos tempos, acho que voltei a dormir. Pelo menos uma vez, acho que Tram apareceu em meus sonhos, mas ela nunca disse nada, apenas chacoalhou a peneira de arroz e sorriu, assim, como se fosse um dia agradável de verão.




* O diário de Dang Thuy Tram foi devolvido para sua família pelo sargento Fred Whitehurst em 2005, após ser catalogado pelo Arquivo do Vietnã na Universidade Texas Tech.