11.2.08

Democratas mais perto do poder nos EUA

Salvador, Bahia
Domingo , 10/02/2008

1º Caderno
Democratas mais perto do poder nos EUA


PATRICK BROCK | ESPECIAL PARA A TARDE

Em 1925, Monteiro Lobato publicou no jornal carioca "A Manhã" uma novela de ficção científica em que descrevia a eleição de um negro para presidente dos Estados Unidos. Nunca os americanos estiveram tão perto de concretizar a profecia do visionário de Taubaté, enquanto o Partido Republicano já discerne no horizonte uma derrota semelhante à de 1932, quando Franklin Delano Roosevelt retomou o poder para o Partido Democrata em meio aos destroços da Grande Depressão.

A eleição presidencial americana de 2008 vem motivando forte participação dos eleitores dos EUA, onde o voto é facultativo. As dificuldades enfrentadas pelo país depois de oito anos do governo de George W. Bush mobilizaram as pessoas e eletrizaram especialmente os jovens.

FAVORITOS – A vitória dos democratas já é prevista em alguns círculos, mas ainda permanece a dúvida sobre quem vai liderar o retorno ao poder. A senadora Hillary Clinton, casada com o ex-presidente Bill Clinton (1993 a 2001), é a favorita dos democratas, mas está numa disputa com Barack Obama.

No lado republicano, um cenário em rápida mutação mostra a vantagem do senador John McCain, ex-militar, e a desistência do favorito de outrora, Rudy Giuliani, ex-prefeito de Nova Iorque, conhecido pelo suposto heroísmo durante os atentados de 11 de setembro de 2001, mas prejudicado por erros estratégicos na campanha (leia mais ao lado).

Mitt Romney, milionário governador do Estado de Massachusetts, abandonou a corrida na quinta-feira, depois de gastar mais de US$ 40 milhões de sua fortuna pessoal na campanha.

CALENDÁRIO – As eleições primárias dos dois partidos vão de janeiro a julho, e terminam nas convenções nacionais (os democratas, em Denver, em agosto, e os republicanos, em St. Paul, em setembro). Nelas, os delegados escolhidos pelo voto estadual de cada partido decidem quem será o indicado para concorrer à presidência.

O voto final é na eleição nacional em 4 de novembro.

O processo pode parecer um tanto massacrante, mas permite que o eleitor analise detalhadamente os planos dos candidatos, através de incontáveis comícios e debates marcados por feroz competição. As pesquisas de opinião indicam que o pavor do terrorismo diminuiu desde 2001, abrindo espaço para as preocupações com o recente flagelo da economia, causado por uma bolha especulativa no mercado imobiliár io.

O país também está em guerra no Afeganistão e no Iraque, trágicos conflitos cuja administração incompetente azedou a opinião pública americana, e tenta estancar a maior onda de imigração desde o início do século XX. O governo calcula em 12 milhões o número de ilegais no país.

A Comissão de Orçamento do Congresso prevê déficit de US$ 250 bilhões em 2008, ante US$ 163 bilhões no ano fiscal passado. Esse cálculo não conta com o plano emergencial de injetar mais de US$ 150 bilhões em incentivos fiscais para estimular a economia, aprovado na quintafeira pelo Congresso.

PREVISÃO – O historiador político Alan Lichtman, professor da American University, em Washington, desenvolveu um método matemático que antecipou corretamente o partido vitorioso em todas as eleições presidenciais desde 1984. Com base no trabalho do geofísico russo Vladimir Keilis-Borok para prever terremotos, o sistema usa 13 chaves. Em 2008, sete chaves reprovam os republicanos e uma está prestes a virar contra: a da economia no curto prazo.

Em entrevista para A TARDE, Lichtman disse que a recessão nos EUA só pode ser considerada oficial quando for decretada pelo Bureau Nacional de Pesquisa Econômica, apartidário.

PRIMÁRIAS – O triunfo de Obama nas primárias em Iowa e Carolina do Sul lhe ajudou a concorrer em pé de igualdade com Clinton e forneceu impulso para a "superterça" em 5 de fevereiro, quando 24 estados realizaram as primárias. Nelas, enquanto John McCain emergiu como o favorito para a nominação republicana, o Partido Democrata mergulhou numa batalha feroz entre Clinton e Obama. Neste final de semana mais cinco estados realizam primárias.

Politicamente hábil e muito mais célebre do que Obama, Hillary tem o controle da máquina política do partido e também conta com a estratégica ajuda do carismático marido.

O célebre episódio das lágrimas públicas após a derrota inicial em Iowa também ajudou o público a compreendê-la melhor, suavizando a imagem de "dama de gelo". "As pessoas precisam se identificar com o candidato num nível emocional", diz Lichtman.

Obama, por outro lado, saiu escaldado de uma arenga sobre Martin Luther King que introduziu o elemento racial na campanha pela primeira vez. Um deslize de Hillary, ao afirmar numa entrevista que o reverendo precisou da ajuda de um presidente para obter as conquistas do movimento dos direitos civis, atraiu ataques mal-sucedidos de assessores de Obama. "Pela primeira vez ele foi visto como candidato de um grupo, e não alguém que pode unir o país", diz Lichtman.

❛ "As pessoas precisam se identificar com o candidato em um nível emocional" "A recessão nos EUA só pode ser considerada oficial quando for decretada pelo Bureau Nacional de Pesquisa Econômica" "Pela primeira vez, Obama foi visto como o candidato de um grupo" Alan Lichtman, historiador político ❚

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Salvador, Bahia
Domingo , 10/02/2008

1º Caderno
Candidato negro tem discurso eloqüente


Barack Hussein Obama nasceu no Havaí, filho mestiço do breve romance entre uma americana do Kansas e um estudante de intercâmbio de Quênia, que se separaram quando ele completou dois anos. Aos seis, ele foi morar com a mãe na Indonésia, onde estudou numa escola islâmica, mas voltou quatro anos depois a Honolulu para morar com os avós maternos e educar-se no sistema público americano, no qual descobriu a intolerância do racismo. Quarenta anos depois, decidiu se candidatar a presidente do país com a promessa de mudança.

A extraordinária história de Obama, que disputa com Hillary Clinton a indicação do Partido Democrata para a presidência dos Estados Unidos, levou um livro para ser contada. Sua autobiografia, best-seller mundial, foi publicada em 1995, antes da carreira política começar, quando ele ainda estudava direito na Universidade de Harvard.

Sua retórica brilhante inspirou comparações com o presidente John F. Kennedy, e ele conta com o importante apoio do senador Edward Kennedy, um dos principais líderes democratas, e da popular apresentadora de TV Oprah Winfrey.

De modo muito franco, ele contou na autobiografia que usou drogas na juventude, quando "queria esquecer todas as dúvidas sobre quem eu era", e tem inspirado uma fervorosa legião de seguidores, especialmente entre as gerações mais jovens, que cresceram na era de reparação racial obtida pela luta do movimento dos direitos civis nos anos 60.

A índole eloqüente e a história pessoal de Barack transmitem otimismo e inspiração nos comícios, mas a curta carreira no cenário nacional causa desconfiança nos eleitores americanos.

Como J.F.K., ele é jovem, e sua mensagem de mudança tem sido comparada à do presidente assassinado em 1963.

O historiador Alan Lichtman considera que Obama é candidato atraente para os eleitores em busca de uma "mudança fundamental", por ser um novato que não representa as viciadas engrenagens políticas de Washington.

Mas Obama tem sido criticado por mostrar muita exuberância verbal e pouca substância em seus planos para o país.

Depois de um curto período trabalhando em Wall Street, Obama se mudou no início dos anos 80 para Chicago, onde passou a trabalhar como organizador comunitário para famílias pobres em condominíos habitacionais públicos. Em 1993 começou a ensinar direito constitucional na Universidade de Chicago, ocupação que manteve ao ser eleito deputado estadual em 1996, mas abandonou ao chegar a senador em 2004.

Obama tem 46 anos, é casado desde 1992 com a advogada Michelle Robinson e tem duas filhas pequenas: Malia Ann e Natasha.

Ele mora no bairro Kenwood, no sul de Chicago, e freqüenta a igreja evangélica Trinity United Church of Christ. Sua mãe, Ann Dunham, era PHD em antropologia e morreu de câncer em 1995, enquanto seu pai, Barack Obama Sr., economista da etnia Luo, morreu num acidente de carro em 1982, em Nairóbi.

i Notícia integrada: Assista ao vídeo da avó de Barack Obama em sua fazenda, no Quênia, no portal A TARDE ON LINE | www.atarde.com.br
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Salvador, Bahia
Domingo , 10/02/2008

1º Caderno
Trajetória de republicanos é repleta de curiosidades


Sentados à mesa do debate televisionado, os candidatos republicanos: o pastor batista, o herói de guerra, o empresário bem-sucedido e, até quinze dias atrás, o prefeito que limpou uma cidade ingovernável. Outros já ficaram pelo caminho e os favoritos já não são os mesmos.

Mike Huckabee se parece com o presidente George W. Bush em alguns aspectos: é um sujeito simplório, pastor batista, que fala de um jeito que os americanos compreendem. Mas ele não pode contar com a ajuda dos conservadores cristãos, desmoralizados por escândalos recentes e os problemas do governo Bush.

Ex-governador do Arkansas (1996 a 2007), ele é conhecido por perder 50 kg e defender um estilo de vida mais saudável. Obteve uma vitória nas primárias de New Hampshire mas chegou em terceiro nas outras corridas, prejudicado pela falta de dinheiro para a campanha.

Em 1967, no Golfo de Tonkin, Vietnã, um míssel Zuni de um caça F-4 Phantom atingiu o avião em abastecimento do tenentecomandante John McCain.

Ele pulou do avião na última hora, mas foi aprisionado meses depois pelos vietnamitas, quando seu avião caiu em Hanói.

Ele só foi libertado em 1973 e até hoje não consegue levantar muito os braços por causa das torturas que sofreu no infame "Hanói Hilton".

Senador desde 1983, McCain se apresentou na campanha como o candidato da segurança que vai arrumar a bagunça do Iraque e proteger o país da Al-Qaeda. Antes favorável à imigração, o senador pelo Estado de Arizona baixou um pouco a voz nesse tópico e logo subiu nas pesquisas, obtendo algumas vitórias importantes nas primárias depois de a imprensa ter decretado a morte da sua campanha por falta de dinheiro.

Considerado um conservador centrista, é o favorito entre os republicanos e ganhou o apoio do governador do Estado da Califórnia, o ator austríaco Arnold Schwar zenegger.

O ex-prefeito de Nova York "Rudy" Giuliani cometeu um erro estratégico ao ignorar as primárias iniciais, confiante nas pesquisas de opinião que o identificavam como o favorito dos republicanos, e acabou abandonando a campanha em meio a uma derrota humilhante.

"Ele ficou parecendo uma nota de rodapé, saiu de evidência", diz o historiador político Alan Lichtman.

Os eleitores conservadores acabaram se assustando com a biografia do herói do horror das Torres Gêmeas: casado três vezes, ele é a favor do aborto, do controle de armas e da união entre pessoas do mesmo sexo.

Sua campanha estava sem dinheiro; alguns assessores trabalhavam de graça para economizar; um de seus aliados foi indiciado recentemente por suspeita de corrupção e o "The New York Times" revelou que Giuliani botou nas contas da prefeitura os gastos da segurança quando ia visitar a amante. E, num golpe final, ele chegou em terceiro nas primárias da Flórida na terça-feira, estado onde apostou todas as suas fichas. Acabou abandonando a campanha, e declarou apoio a John McCain.

* O jornal "The New York Times" revelou que o pré-candidato Rudolph Giuliani inseriu nas contas da prefeitura de Nova Iorque os gastos da segurança quando ia visitar a amante

5 comentários:

salvatore carrozzo disse...

hey,brock, belezinha? po, entao o a tarde publicou mesmo sua materia sobre as eleicoes norte-americanas?
muito bacana a charge.
e tb o seu lide, falando do monteiro lobato..super bem colocado!

Ricardo Vidal disse...

Patrick, esta matéria sobre as eleições americanas de 2008 está perfeita. O lead citando o libro "O Presidente Negro" de Monteiro Lobato foi primoroso e a análise da disputa democrata, com o perfil de Obama estão ótimos. Meus parabéns, de um ex-colega da FACOM. No mais, aviso-te que eu escrevi a resenha do seu livro "Textorama". Mesma foi publicado esta semana do jornal de minha cidade natal, Valença Agora. o texto está disponível no meu blog: http://bardocelta.blogspot.com/2008/02/contos-zero-zero-de-patrick-brock.html. Depois diga o que acho, se ela realmente analisa o livro ou se eu viajei demais na minha leitura de seus conto. UM abraço, RIcardo Vidal

Anônimo disse...

Salvatorer:
Valeu os comentários. Acabou que saiu, ao ritmo baiano, atrasado...

Ricardo: obrigado pelos elogios à matéria. Acho que você captou legal o contexto de Textorama, pois sua crítica tem conclusões parecidas com a de Flávio Ilha, da revista Aplauso. A verdade é que nem sempre o autor é tão racional na hora de escrever. Tem vezes que a arte é fruto só mesmo do coração.

mr. emecê disse...

Com Ralph Nader candidato, a candidatura democrata começa a fazer água.
A propósito, a melhor frase sobre a aposentadoria do coma-andante fidel foi dita pelo republicano McCain:
“I hope he has the opportunity to meet Karl Marx very soon”.

r.reagan disse...

O New York Times em dia de pasquim

O Estado de SP- 29/02/2008:
A legitimidade da candidatura presidencial do republicano John McCain tornou-se tema de debate após a publicação, ontem, de uma reportagem de The New York Times. O jornal questiona se McCain pode ser presidente, apesar de não ter nascido em território americano.
O republicano, filho de um almirante, nasceu numa base militar dos EUA na Zona do Canal, no Panamá, em 1936. A cidadania do senador foi estabelecida por estatutos sobre os filhos de americanos no exterior e leis específicas para a Zona do Canal.
Os assessores de McCain garantem que o candidato cumpre com os requisitos previstos na Constituição, que estabelecem que apenas os “americanos natos” podem ser presidente do país. A equipe do senador garante que o tema já foi esclarecido na primeira vez que McCain concorreu à nomeação do partido para a candidatura presidencial, em 1999.
(...)
A reportagem do Times lembra que, até hoje, nenhum dos presidentes americanos nasceu fora dos 50 Estados do país. McCain disse ontem que tem certeza de que é qualificado, dentro das normas legais impostas, para tornar-se presidente. “Não tenho nenhuma preocupação quanto a isso”, disse McCain. O republicano afirmou que sua elegibilidade para a presidência dos EUA “certamente” não era algo que seu pai previu quando servia numa base militar do país.