23.12.08

Alguns dos melhores livros de 2008

Inspirado por um artigo do site Cronópios resolvi preparar também a minha lista dos melhores livros de 2008. Pra mim, pelo menos:

Curso de Literatura Inglesa, Jorge Luis Borges (Editora Martins Fontes)
Passei os últimos quinze dias conversando com Borges. A sala de aula era o metrô de Nova York. Falamos sobre Coleridge, Blake, sagas vikings, guerras medievais, traições, a formação do inglês moderno. Depois de tanto tempo, já me parece que Borges é um velho companheiro, um professor brilhante. Este curso é ouro puro. Ensina sobre alguns dos autores e textos essenciais da literatura inglesa, sem se deter no peso de Shakespeare, ao sabor das preferências pessoais de Borges, durante 25 aulas ministradas em 1966 na Universidade de Buenos Aires. Os camaradas tiveram trabalho para checar todas as referências do bibliotecário de Babel. Surpreendentemente, no que cita, Borges nunca erra. No máximo emprega subterfúgios naturais, mas nunca se entrega. Se a literatura de língua inglesa de 800 a 1900 te interessa, va à caça. Comprei na velha Civilização Brasileira do Shopping Iguatemi, em Salvador

The Fifties, de Douglas T. Miller e Marion Novak (Doubleday & Company, New York, 1977) Agora mesmo vai estrear no cinema o novo filme de Sam Mendes, "Revolutionary Road", uma denúncia ao conformismo suburbano dos EUA. Este livro de 1977 critica a relativa nostalgia com os anos 50 vigente na época, e cria uma historiografia de uma década fundamental na formação da cultura americana contemporânea. E, sob certa medida, de acontecimentos que interferiram na vida de muita gente, como a histeria anti-comunista. Mais ou menos como um "textbook" escolar de esquerda. As informações são riquíssimas para o estudioso da verborragia ianque. O tom revisionista pode amolar um pouco, especialmente quando se cria o retrato da dona de casa oprimida na estéril vida suburbana e se ignora que sempre há saída, ainda mais numa sociedade afluente, embora ainda separada. A segregação racial nos EUA começava a rachar, seja pela penetração da música negra no gosto popular, ou pelos conflitos constitucionais das leis que mantinham as raças "separadas mais iguais". E, finalmente, uma crítica decente de "Apanhador no Campo de Centeio", livro que causou uma sensação na época. Miller e Novak consideram o existencialismo de J.D. Salinger alienado, e o comparam a outro livro dos anos 50, "Homem Invisível", de Ralph Ellison. "A hibernação é uma preparação secreta para a ação aberta", diz o protagonista negro, após sua odisséia pelo racismo. De fato, nos anos 60 a revolta explodiu, acelerando a transferência dos brancos para os subúrbios, de volta para a segregação, enquanto os centros das cidades eram ocupados pelos negros e decaíam financeiramente. Dá pano pra manga. Nesse livro descobri que "rock and roll" era gíria do gueto e significa "dançar e transar". E "Invisible Man" é muito mais porradão que os "phonies" de Salinger.

Story of O, Pauline Réage (Ballantine Books, translation by Sabine d'Estrée) O mérito da História de O é muito mais do que te deixar com uma ereção constante durante uma semana (tempo que demorou para ler o fino volume). A própria história convoluta da publicação é mais uma camada de sentido deste clássico do erotismo, um sucesso de vendas mundial. Escrito por uma tímida editora literária de Paris (que só se revelou pouco antes de sua morte no início do milênio) para seu amante, um galã das letras francesas, é uma declaração de submissão total ao amor. A heroína enfrenta luxuriantes torturas e humilhações do namorado e seus amigos mas sente secreto prazer em sua condição. O argumento é o amor pelo namorado René, que depois é transferido para o sádico Sir Stephen numa masmorra nos arredores de Paris, o O (simplesmente) é possuída por vários homens, às vezes violentamente. Algumas feministas ficam horrorizadas, mas eu prefiro interpretar o livro mais subjetivamente, como uma denúncia do romantismo e uma apologia do sadomasoquismo, do prazer na dor. O livro chegou a ser proibido na França. Bom para ler com alguém.

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