7.10.08

The Animals

Mr. Cajas was in a quick-reaction force, the guys who knock down doors. “We did a good job,” he said. “The irony of service is, we did a good job, and came back different. This is what it does to humans. The analogy we used was prison. We were locked in the base, and every time we were released, we had to go kill people. We acted like animals because that’s what we were.”

2.10.08

Sobre os escritores

"Eruditos, pretensiosos e bem providos de mãozinhas de seda... Mas sem rosto e entregues a um rendoso comércio de prestígio, um promíscuo troca-troca explícito, a maior suruba da paróquia."
Raduan Nassar

19.9.08

Ser baiano



O Mito da Preguiça Baiana, Não Passa de Racismo

Escrito por Girimias Dourado
Saturday, 04 December 2004

"Preguiça baiana" é faceta do racismo. A famosa "malemolência" ou preguiça baiana, na verdade, não passa de racismo, segundo concluiu uma tese de doutorado defendida na USP. A pesquisa que resultou nessa tese durou quatro anos.


A tese, defendida pela professora de antropologia Elisete Zanlorenzi, da PUC-Campinas, sustenta que o baiano é muitas vezes mais eficiente que o trabalhador das outras regiões do Brasil e contesta a visão de que o morador da Bahia vive em clima de "festa eterna".

Pelo contrário, é justamente no período de festas que o baiano mais trabalha. Como 51% da mão-de-obra da população atua no mercado informal, as festas são uma oportunidade de trabalho. "Quem se diverte é o turista", diz a antropóloga.

O objetivo da tese foi descobrir como a imagem da preguiça baiana surgiu e se consolidou. Elisete concluiu, após quatro anos de pesquisas históricas,que a imagem da preguiça derivou do discurso discriminatório contra os negros e mestiços, que são cerca de 79% da população da Bahia.

O estudo mostra que a elevada porcentagem de negros e mestiços não é uma coincidência. A atribuição da preguiça aos baianos tem um teor racista.

A imagem de povo preguiçoso se enraizou no próprio Estado, por meio da elite portuguesa, que consideravam os escravos indolentes e preguiçosos, devido às suas expressões faciais de desgosto e a lentidão na execução do serviço (como trabalhar bem-humorado em regime de escravidão????).

Depois, se espalhou de forma acentuada no Sul e Sudeste a partir das migrações da década de 40. Todos os que chegavam do Nordeste viraram baianos. Chamá-los de preguiçosos foi a forma de defesa encontrada para denegrir a imagem dos trabalhadores nordestinos (muito mais paraibanos do que propriamente baianos), taxando- os como desqualificados, estabelecendo fronteiras simbólicas entre dois mundos como forma de "proteção" dos seus empregos.

Elisete afirma que os próprios artistas da Bahia, como Dorival Caymmi, Caetano Veloso e Gilberto Gil, têm responsabilidade na popularização da imagem. "Eles desenvolveram esse discurso para marcar um diferencial nas cidades industrializadas e urbanas.

A preguiça, aí, aparece como uma especiaria que a Bahia oferece para o Brasil", diz Elisete.

Até Caetano se contradiz quando vende uma imagem e diz: "A fama não corresponde à realidade. Eu trabalho muito e vejo pessoas trabalhando na Bahia como em qualquer lugar do mundo".

Segundo a tese, a preguiça foi apropriada por outro segmento: a indústria do turismo, que incorporou a imagem para vender uma idéia de lazer permanente "Só que Salvador é uma das principais capitais industriais do país, com um ritmo tão urbano quanto o das demais cidades."

O maior pólo petroquímico do país está na Bahia, assim como o maior pólo industrial do norte e nordeste, crescendo de forma tão acelerada que, em cerca de 10 anos será o maior pólo industrial na américa latina.

Para tirar as conclusões acerca da origem do termo "preguiça baiana", a antropóloga pesquisou em jornais de 1949 até 1985 e estudou o comportamento dos trabalhadores em empresas. O estudo comprovou que o calendário das festas não interfere no comparecimento ao trabalho. O feriado de carnaval na Bahia coincide com o do resto do país. Os recessos de final de ano também.

A única diferença é no São João (dia 24 /06), que é feriado em todo o norte e nordeste (e não só na Bahia).

Em fevereiro (Carnaval), uma empresa, com sede no Pólo Petroquímico da Bahia, teve mais faltas na filial de São Paulo que na matriz baiana (sendo que o n° de funcionários na matriz é 50% maior do que na filial citada).

Outro exemplo: a Xerox do Nordeste, que fica na Bahia, ganhou os dois prêmios de qualidade no trabalho dados pela Câmara Americana de Comércio (e foi a única do Brasil).

Pesquisas demonstram que é no Rio de Janeiro que existem mais dos chamados "desocupados" (pessoas em faixa etária superior a 21 anos que transitam por shoppings, praias, ambientes de lazer e principalmente bares de bairros durante os dias da semana entre 9 e 18h), considerando levantamento feito em todos os estados brasileiros. A Bahia aparece em 13° lugar.

Acredita-se hoje, e ainda por mais uns 5 a 7 anos, que a Bahia é o melhor lugar para investimento industrial e turístico da América Latina, devido a fatores como incentivos fiscais, recursos naturais e campo para o mercado ainda não saturado.

O investimento industrial e turístico tem atraído muitos recursos para o estado e inflado a economia, sobretudo de Salvador, o que tem feito inflar também o mercado financeiro (bancos, financeiras e empresas prestadoras de serviços como escritórios de advocacia, empresas de auditoria, administradoras e lojas do terceiro setor).

Mídia reproduz preconceito e imagem construída da preguiça baiana.

A preguiça baiana e a imagem generalizada do nordestino malemolente e devagar são perfis construídos historicamente e reforçados pela mídia.

Essa é uma das conclusões da tese, que será transformada em livro e deve chegar às livrarias até o final do ano.

A pesquisadora explica que, depois de morar em Salvador, entre 1980 e 1984, ficou intrigada com a campanha difamatória comandada pela mídia local sobre o movimento do bairro Calabar, que teve origem a partir de uma ocupação na década de 1940 em uma região nobre da capital baiana.

"O que me chamou a atenção foi que eles davam um duro danado: conseguiram água, esgoto e luz para Calabar. Mas a imprensa fazia a imagem de vagabundos, preguiçosos e criminosos", lembra a autora da pesquisa, que focou seu trabalho na representação do trabalho e do tempo.

O papel da imprensa nessa construção é muito importante, diz Zanlorenzi, porque reproduz o discurso e os interesses da elite. Desde o século XVI, a elite baiana depreciava os negros escravos, que eram descritos, primeiramente, como desorganizados e sujos, depois como analfabetos e sem conhecimento, e, finalmente, como preguiçosos.

A famosa Ladeira da Preguiça, em Salvador, ganhou este nome por ter sido a via de acesso de mercadorias vindas do porto para a cidade e que eram levadas em carretões puxados a boi e empurrados por escravos.

Essa era a forma de interiorização da dominação, no período da escravidão, afirma a antropóloga. Depois, a depreciação assumiu a forma da exclusão. Assim aconteceu com os negros, índios e imigrantes nordestinos nas regiões Sul e Sudeste, quando, a partir da década de 1950, intensificou-se a imigração.

A imagem de preguiçoso estendeu-se aos imigrantes dos estados nordestinos, categorizados como "baianos", a grande maioria oriunda de fazendas vitimadas pela seca, normalmente mestiços, afro-descendentes e desqualificados profissionalmente.

O nordestino foi responsabilizado, enfatiza a pesquisadora, por todo caos do crescimento urbano da cidade, enquanto não havia qualquer projeto de inclusão social.

"Depreciar era interessante, porque justificava baixos salários e falta de investimento", esclarece.

O sociólogo Octavio Ianni (1925-2004), um dos examinadores da banca de doutorado de Zanlorenzi, destacou que a tese mostrava a forma sutil de racismo a negros e nordestinos.

No candomblé, outra raiz dessa imagem pôde ser identificada, uma vez que a relação tempo e trabalho ali existente se contrasta com a da visão capitalista.

"A influência da cultura afro na Bahia é muito forte e o candomblé é a matriz religiosa dessa cultura, onde o trabalho não se contrapõe ao tempo livre nem é uma obrigação, como no capitalismo", explica.

No candomblé, o trabalho é só um dos aspectos da vida, além do lazer, da família e dos amigos, sem fazer com que isso represente um trabalho desleixado.

"Só agora, o capitalismo está descobrindo a necessidade de ver o trabalhador como um ser humano", lembra a antropóloga. Não é à toa que na sociedade capitalista é tão comum perguntar a uma criança "o que ela vai ser quando crescer", e chama de preguiça o trabalho que não é realizado para o acúmulo.

Assim, o índio, por exemplo, que produz para a subsistência, também recebeu o mesmo estigma de preguiçoso.

Jornais

Em seu doutorado, Zanlorenzi analisou a cobertura dos jornais Folha de S. Paulo, O Estado de São Paulo, Jornal da Bahia e Jornal do Brasil, entre os anos de 1949 e 1985, e constatou, por exemplo, que o Sudeste foi construindo a imagem da preguiça associada à imigração.

O trabalho concentrou-se nos períodos de festa (junho/julho/agosto e dezembro a março), quando mais se trabalha no Nordeste, mas quando mais se reforça a imagem da preguiça e do não-trabalho.

Entre as conclusões, verificou-se que os jornais eram o espelho do discurso social mais amplo, ou seja, não eram eles os geradores, mas ajudavam a criar um discurso autônomo na sociedade. Outra constatação da pesquisa foi que a mídia passou a ser o espaço de reprodução do discurso turístico, a partir da década de 1960, quando o próprio governo do estado da Bahia passou a explorar a imagem da preguiça.

Nessa época, a indústria do turismo investiu no slogan da Bahia paradisíaca, para onde deve ir aquele que quer descansar, onde a festa nunca acaba e ninguém usa relógio. Também nesse período, Dorival Caymmi e Ary Barroso cantavam a Salvador de 1920, linda e malemolente, enquanto os novos baianos - Gal Costa, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia - incorporaram a mesma imagem da preguiça, como forma de se diferenciar no cenário musical da época nas regiões Sudeste e Sul.

Até hoje, a antropóloga ressalta que os baianos trabalham muito pela indústria do entretenimento, embora a preguiça tenha sido adotada como traço de identidade cultural.

Zanlorenzi, diz não acreditar que o discurso da preguiça tenha impregnado os próprios baianos e nordestinos que moram na sua região, "porque eles sabem o quanto trabalham".

No entanto, ela acredita que quando esses migram para o Sudeste acabam assumindo essa inferiorização em função do meio externo. "Quando se folcloriza, o discurso se desloca da realidade e ganha vida própria, criando uma força até maior do que tem", explica.

Elisete Zanlorenzii, é antropóloga, pesquisadora, professora da PUC-Campinas e coordena a área de Política Cultural do Programa de Apoio às Políticas Públicas da Pró-Reitoria de Extensão da mesma universidade.



comciencia

5.9.08

Troopergate


Confesso que as duas convenções políticas americanas me deixaram enojado, reflexivo. A convenção democrata menos, apesar daquelas colunas cafonas. Palavras chave ou nuvem de idéias: restaurar o sonho americano e a posição de liderança do país no mundo. Quando eu e uma amiga ouvimos isso, ficamos assustados.

A convenção republicana foi de um militarismo atroz, críticas ferinas a Obama e à esquerda, principalmente ao arquétipo do liberal. Então John McCain, condecorado herói da guerra do Vietnã, ex-prisioneiro de guerra e etc, e diz: "A mudança está vindo", sem muita cerimônia, se apropria do bordão da oposição para prometer mudança...mesmo com o seu partido no poder há 8 desastrosos anos de George W. Bush. (Já está na web o trailer de W., filme de Oliver Stone sobre o filho pródigo, garantia de alvoroço, pois será lançado pouco antes da eleição.)

Uma ferramenta interessante para tentar se prever o resultado das eleições presidenciais americanos é o electoral vote tracker do jornal USA Today, o maior do país.

Com base em pesquisas de opinião, eles já apontam alguns estados que tendem para os democratas e outros que preferem os republicanos. Eu voltei até a eleição de 1960, JFK contra Nixon, e acompanhei os padrões de mudança de voto dos estados durante os anos. Na reeleição de Reagan, em 1984, os americanos ovacionaram o pai do neoconversadorismo com mais de 80% dos votos.

O padrão da era Bush lembra o fim do governo Nixon, em 1973, quando o democrata Jimmy Carter venceu a eleição. Se parece também com o da vitória de Kennedy. A maioria das pesquisas (e, acredite, são centenas) indica vantagem de Obama no início da corrida, que vai até 4 de novembro. A governadora do Alaska, Sarah Pailin, escolha ousada dos republicanos para atrair o voto feminino das desiludidas eleitoras de Hillary Clinton, fascinou a direita. Mas todo tipo de sujeira já vem à tona sobre a ex-miss estadual: sua filha de 17 anos apareceu grávida, ela está sendo investigada pela assembléia estadual por suspeita de abuso de poder - o marido e um assesor tentaram forçar o secretário de segurança pública a demitir um policial rodoviário, um "Trooper", daí o nome do novo escândalo: Troopergate.


Voltando ao mapa do colégio eleitoral, acho que as chances de Obama são boas. Os americanos estão insatisfeitos com a incompetência do último governo e não enxergam nenhum Reagan a surgir pelo caminho. Só o velho McCain, que fez um bonito e hipócrita discurso ao aceitar a indicação de seu partido para disputar a presidência.

O National Enquirer, tablóide de fofocas dos mais escusos, anunciou que vai divulgar aos poucos fatos chocantes sobre Sarah Pailin e sua família. Antes execrado universalmente, o Enquirer divulgou com exclusividade um caso extra-conjugal do ex-senador John Edwards, um dos pretendentes democratas a disputar a presidência que ficou pelo caminho. Sua mulher (detalhe) está com câncer terminal. A carreira de Edwards, por enquanto, parece ter sido destruída.

John Edwards fez fama mesmo com processo milionários contra várias empresas por negligência ou responsabilidade. Seu maior caso, uma indenização de mais de US$ 20 milhões, foi obtido com uma menina de três anos que sentou num ralo aberto e teve seu intestino grosso sugado pela bomba da piscina. Ela ainda está viva.

A família Lakey, aparentemente feliz, com a menina em questão no meio. A foto é dos anos 90. Hoje ela deve estar com 19 anos.

1.9.08

Os FFs da Bahia

DEFINE A SUA CIDADE

De dous ff se compõe
esta cidade a meu ver,
um furtar, outro foder.
Recopilou-se o direito,
e quem o recopilou
com dous ff o explicou
por estar feito e bem feito:
por bem digesto e colheito,
só com dous ff o expõe,
e assim quem os olhos põe
no trato, que aqui se encerra,
há de dizer que esta terra
De dous ff se compõe.
Se de dous ff composta
está a nossa Bahia,
errada a ortografia
a grande dano está posta:
eu quero fazer aposta,
e quero um tostão perder,
que isso a há de perverter,
se o furtar e o foder bem
não são os ff que tem
Esta cidade a meu ver.
Provo a conjetura já
prontamente com um brinco:
Bahia tem letras cinco
que são BAHIA,
logo ninguém me dirá
que dous ff chega a ter
pois nenhum contém sequer,
salvo se em boa verdade
são os ff da cidade
um furtar, outro foder.

Gregório de Mattos

20.7.08

Strange fruit



By Lewis Allen*

Southern trees bear strange fruit,
Blood on the leaves and blood at the root,
Black bodies swinging in the southern breeze,
Strange fruit hanging from the poplar trees.

Pastoral scene of the gallant south,
The bulging eyes and the twisted mouth,
Scent of magnolias, sweet and fresh,
Then the sudden smell of burning flesh.

Here is fruit for the crows to pluck,
For the rain to gather, for the wind to suck,
For the sun to rot, for the trees to drop,
Here is a strange and bitter crop.

*(Imortalizado na voz de Billie Holiday, com
base num poema de um professor judeu de Nova York. Ninguém queria
gravar a música, até que ela conseguiu um selo alternativo. É
considerada hoje em dia uma das músicas mais importantes da
cultura americana. Ouça aqui)

27.6.08

Kane is back

O jornal New York Post foi fundado em 1801 por Alexander Hamilton, um dos mais importantes líderes da revolução americana, mas propaga hoje em dia a sina sensacionalista do atual dono, o bilionário australiano Rupert Murdoch, controlador do maior império de mídia do mundo, a News Corp. Em artigo na revista Atlantic Monthly, o professor de jornalismo Mark Bowden o decreve como um cidadão Kane às antigas, que torce o nariz para o jornalismo aprofundado defendido por Pulitzer (fundador do curso de jornalismo da Universidade Columbia) e que alcançou o auge com o Wall Street Journal, vendido a Murdoch em 2006 por um valor recorde para um jornal, US$ 6 bilhões. O cara gosta mesmo é de competir com o The New York Times e cavar informações exclusivas. Desde então, ele conseguiu modificar o Journal mais ao seu gosto, mas sempre é empurrado de volta ao noticiário econômico quando os leitores do vetusto diário parecem se rebelar com sua vibe mais imediatista. Um exemplo dela: durante os anos 80, o Post ainda se arrastava um pouco para a esquerda e publicou uma das manchetes mais bizarras de sua história: "Headless body in topless bar", sobre um homícidio numa boate. O Post custa 25 centavos e pode ser adquirido em qualquer biboca e metrô da cidade.

Recentemente, o amarronzado diário publicou fotos sensuais de Ashley Dupre, a garota de programa que foi pivô do escândalo que derrubou o entao governador Eliot Spitzer, que pagou para que viesse a Washington transar com ele num hotel de luxo da cidade. "Ele gostava de umas coisas esquisitas. Mas eu sei lidar com caras assim", disse Ashley no depoimento às autoridades americanas. A investigação sobre estranhas retiradas na conta do governador acabou levando à fonte de seus gastos suspeitos: milhares de dólares para as garotas de programa. Teve gente que noticiou o envolvimento de uma brasileira na história, mas era tudo cascata. Spitzer caiu e hoje o governador de Nova York é o vice David Patherson, que perdeu na infância praticamente toda a visão.

17.6.08

"The Brief Wondrous Life of Oscar Wao"



agora terminei "The Brief Wondrous Life of Oscar Wao", de Junot Díaz, ganhador do prêmio Pulitzer de melhor romance de 2008. Estava voltando do supermercado na minha rua quando me bateu, eu também era um garoto esquisito, lendo o tempo todo, ficção científica e RPG.

No caso de Oscar Wao, um dominicano negro de primeira geração vivendo em Paterson, New Jersey, a vida é um pouco mais estranha. Ler é ridículo para os pares e Oscar é um consumidor voraz, sempre escrevendo trilogias e tetralogias, overweight, sem mulher, ridicularizado por todos, até os melhores amigos. A partir dessa premissa, Díaz conta a sua versão da diáspora nos EUA e dos ossos no armário, da ditadura brutal de Rafael Trujillo.

Não há ponto de partida nesta história da maldição de uma família, o fukú. A República Dominicana e os Estados Unidos compõem os fragmentos dispersos no ponto de vista de amigos e familiares, e de outras histórias, mais antigas e sinistras. A terra prometida da diáspora de Díaz é brutal, mas como na Ilha de Santo Domingo, também tem sonhos e visões do inexplicável. Díaz, como Khaled Hosseini e outros imigrantes e exilados de uma nova literatura americana, adota o inglês para expurgar a sua visão das dores do mundo, mas de sua parte acrescenta uma dose generosa de saboroso espanhol, a exemplo de quando identifica na luxúria do ditador e de seus asseclas os elementos de uma "culocracia".

Díaz também publicou um livro de contos, "Drown" (1996). Nascido em Santo Domingo em 1968, ele é professor de criação literária do MIT e editor da revista Boston Review.

7.6.08

Fui (e já voltei)

16.5.08

Greatest Hits

Aero Willys



Helio Barbosa nasceu numa noite dolorida, pelas mãos de uma parteira caolha, no 12 de dezembro de 1916, em terra seca do Lagarto, onde os habitantes famintos acostumaram-se a caçar os répteis remanescentes. Cresceu forte e sadio, mas perdeu os pais para a tísica aos 18 anos. Ensaiava carreira militar; chegara a cabo; era organizado e prestativo. Mas o irmão mais velho, um padre de certa influência e que deveria sustentar o peso da família, pela tradição daquelas terras do Sergipe, negou a herança onerosa, influenciando a reprovação do irmão nos exames que o tornariam oficial. Resignado, Hélio cuidou da família. Fez bicos.

A próxima oportunidade foi no Banco do Brasil. Virou inspetor, famoso pela argúcia e exatidão. Corrigiu muitas agências bancárias de cidades esquecidas, como Adustina. Próspero, conheceu a filha de um fazendeiro decadente de cana de açúcar. Aproximaram-se, selaram o pacto de modos nada inocentes, formaram numerosa família, instalaram-se na Rua Maruim, ao lado da catedral e da prefeitura. Ele obteve uma posição estável e um Aero-Willys verde. Decidiu estudar na Bahia, formou-se em direito já um senhor distinto e dedicou-se à parapsicologia. Pelo menos uma vez, conseguiu deixar o seu corpo físico, feito interrompido apenas pelo rodar alvoroçado de um ônibus na sua rua, que se tornara central à medida que a cidade crescera nos últimos vinte anos. Aposentado, viajou de navio à Terra Santa e o Vaticano, chegou até a comprar uma pistola Bereta .25, e até, às vezes, a empunhava para mirar o muro.Aos 80 anos, ao menos 40 deles com uma dieta metódica, calórica, tornou-se senil. Dormia a maior parte do tempo. Fui visitá-lo.
- Lembra quando fomos passear no Aero Willis e o carro parou em frente ao Parque Cementeira? Você esperou a chuva passar e depois trocou o fusível. Buzinava duas vezes antes passar nas esquinas - falei, brincando, quando sentei ao seu lado para vê-lo almoçar. Seus olhos lacrimejavam de catarata. Peguei em sua mão. Percebi que tentava me reconhecer. No quarto, ao redor, a audiência íntima respirava em calma expectativa na atmosfera de odor higiênico e pacífico. Um lugar escudado, seu destino final. O frigobar persistente lembrava-o de tempos antigos, sem eletrodomésticos.
- Eu gosto de ler, vô, disse. Só aí é que ele assentiu, com um leve movimento da cabeça grisalha e esfiapada pelos últimos tufos de cabelos.
- E está fazendo muito certo.
Depois, voltou-se para o zumbido do televisor. Dormiu.

24.3.08

Hillary Clinton vira o jogo e Obama tropeça



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Salvador, Bahia
Domingo , 23/03/2008
1º Caderno

PATRICK BROCK | ESPECIAL PARA A TARDE, DE NOVA IORQUE

Texas, 3 de março. Barack Hussein Obama deixa bruscamente a sala onde presidia uma coletiva de imprensa. Ele acabara de ser bombardeado com perguntas incisivas. “Puxa, eu já respondi, tipo, oito perguntas. Estamos atrasados”, disse, apressadamente, enquanto deixava a sala sob os berros dos repórteres, na primeira briga de seu longo namoro com a mídia americana.

Dois dias depois, Hillary Rodham Clinton, sua adversária, obteve importantes vitórias nos Estados do Texas e de Ohio. Renascia das cinzas mais uma vez para alimentar a fogueira da disputa pela indicação do Partido Democrata à presidência dos Estados Unidos, demorado processo que ganhou a complicação adicional de uma disputa intrapartidária entre os candidatos democratas.

A campanha de Hillary Clinton, senadora pelo Estado de Nova Iorque e casada com o ex-presidente Bill Clinton, mostrou seus músculos. Depois de errar a mão ao utilizar o marido para desacreditar Obama, e diante das primeiras pressões para abandonar a corrida – especialmente após a seqüência de derrotas e de John McCain ter assegurado votos suficientes para disputar a presidência pelo Partido Republicano – Hillary trocou alguns assessores de campanha e partiu para o ataque. Ao mesmo tempo, a mídia americana passou a focar mais nos defeitos de Obama do que no fenômeno da sua rápida ascensão ao centro da política nacional.


PARÓDIA – Um sinal desse olhar mais crítico surgiu no programa de televisão “Saturday Night Live”. Numa paródia da cobertura da CNN de um debate presidencial, os jornalistas bajulavam Obama e cortavam Hillary. Esta, por sua vez, captou a mensagem e passou a reclamar da branda cobertura que seu adversário vinha recebendo. Tom Edsall, ex-repórter do Washington Post e professor de jornalismo da Universidade Columbia, disse ao jornal canadense Globe & Mail que “alguns repórteres se envolveram demais com o entusiasmo ao redor” de Obama.

“O que Obama deve fazer – e o que não é capaz de fazer – é articular uma visão concreta que vá além da retórica inspiradora”, disse em entrevista à rede americana NBC Karl Rove, ex-assessor presidencial conhecido em alguns círculos nos EUA como “ o cérebro de Bush”.

Rove, que comandou as duas campanhas do atual presidente americano George W. Bush, acha que o belo discurso de Obama está ficando anêmico. “Tem muito pouco conteúdo. Está passando de inspirador a insípido”. Para ele, Obama tem duas opções: atacar Hillary ou tentar mostrar que realmente tem planos sólidos para comandar o país.


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Salvador, Bahia
Domingo , 23/03/2008
1º Caderno

Delegados do partido vão definir escolha

Embora Hillary tenha ganho estados importantes, Obama conquistou vários estados rurais, o que lhe dá uma vantagem no número de delegados mas não no de "superdelegados" – os cerca de 849 líderes regionais dos democratas com peso maior na escolha do indicado, e que favorecem a Hillary. A próxima etapa são as primárias da Pensilvânia em 22 de abril, com 188 delegados em jogo.

Dois meses depois do início das primárias, e ainda faltando seis meses para a sua conclusão, o Partido Democrata luta para resolver a disputa com os Estados de Michigan e Flórida.

Eles foram expulsos da convenção nacional do partido em agosto porque quiseram realizar as suas primárias antes da "superterça" de 5 de fevereiro, contra determinação do diretório nacional.

Com seus 366 delegados, os dois importantes estados podem ajudar a decidir quem será o candidato democrata à presidência.

A dúvida é como será feita a partilha e se haverá novo voto.

O presidente do partido, Howard Dean, propôs a divisão igualitária dos delegados na Flórida e há um plano de votar novamente em Michigan, mas o processo de negociação para encontrar uma solução tem se arrastado.

Esta semana, os democratas da Flórida recusaram um plano de votar novamente e alguns deles defenderam uma penalização no número de delegados, em troca da participação na convenção (PB).

Salvador, Bahia
Domingo , 23/03/2008
1º Caderno Mídia investiga a vida de Obama

As últimas semanas têm sido difíceis para Barack Hussein Obama, de 46 anos, nascido em Honolulu, Havaí, a 4 de agosto. Apesar das vitórias nas últimas primárias, do Mississippi e Wyoming, e da vantagem no voto popular, ele teve de apagar vários incêndios de campanha e explicar a amizade com um lobbista acusado de corrupção e com um pastor negro radical. Os resultados das pesquisas de bocade-urna no Texas e em Ohio também revelaram um eleitorado claramente dividido em relação a ele, não apenas em termos de raça, mas também em faixa etária e nível educacional.

Foi revelado que um de seus assessores para política internacional disse a diplomatas canadenses que a postura crítica de Obama em relação ao Nafta, acordo de livre comércio com o México e o Canadá, era pura encenação e que ele não pretendia renegociá-lo. A gafe repercutiu muito mal, especialmente em estados como Ohio, que vêm sofrendo com a globalização e a fuga das fábricas para o mundo em desenvolvimento.

“Temos uma cultura política doentia, e é desse ambiente que Barack Obama veio”, disse à rede de TV ABC Jay Stewart, o diretor da Better Goverment Association, ONG de fiscalização do governo criada em Chicago em 1923 para combater a máfia de Al Capone. Outra assessora chamou Hillary de “monstro” em entrevista a um jornal holandês.

PASTOR – As redes americanas de TV exibiram gravações de vídeo de Jeremiah Wright Jr., pastor de Obama, que celebrou seu casamento e batizou suas filhas, acusando o governo americano de corrupção e racismo e sugerindo que o país mereceu os ataques do 11 de Setembro de 2001.

“Deus abençoe a América? Deus amaldiçoe a América!”. As imagens foram amplamente divulgadas e repercutiram negativamente, obrigando o candidato a apagar o incêndio.

Na Filadélfia, num brilhante discurso em que falou pela primeira vez da questão da raça, Obama defendeu a sua posição, distanciando-se das declarações de Wright mas sem criticá-lo. “Eu não posso condená-lo, assim como não posso condenar a comunidade negra”, disse Obama.

“Tanto como não posso condenar a minha avó branca, que muitas vezes demonstrou estereótipos racistas que me deixaram com raiva”, disse.

Mais uma vez, Obama demonstrou retórica brilhante, comparável à do reverendo Martin Luther King, Jr. No entanto, ele também abriu uma nova fase da campanha, ao abandonar o discurso de que a cor da pele não deve ser um fator e reconhecer a face racista dos EUA.

A questão racial ficou mais transparente nesta etapa da campanha, com os resultados das primeiras compilações de dados. O resultado é surpreendente: Obama vence nas zonas rurais e nos estados de maioria negra ou branca, mas perde nas zonas urbanas com maior diversidade racial, onde se concentra a população americana.

De todas as complicações que surgiram nos últimos tempos, a mais cabeluda é o julgamento de Tony Rezko, lobbista de Chicago que angariou fundos para as primeiras campanhas do senador mas agora é acusado de corrupção e fraude.

Em 2005, Obama comprou uma casa de US$ 1,7 milhão em Chicago, no bairro South Side, enquanto a esposa de Rezko, no mesmo dia, comprou por US$ 650 mil um terreno baldio adjacente à casa.

Depois, a família Obama comprou uma parte do terreno baldio por US$ 300 mil. Obama admitiu que visitou a casa junto com Rezko e que o negócio, que pode constituir uma violação das regras de ética do Senado dos EUA, foi “burrice”

Antes o elefante branco na sala, a questão racial ficou mais transparente nesta etapa da campanha, com os resultados das primeiras compilações de dados sobre o voto. O resultado é surpreendente: Obama vence nas zonas rurais e nos estados de maioria negra ou branca, mas perde nas zonas urbanas com maior diversidade racial, onde se concentra a população americana.

Em Ohio, essas diferenças ficaram claras: a maioria dos brancos acima de 40 anos, especialmente as mulheres e as pessoas sem nível superior, votou em Hillary. Obama ganhou o voto maciço dos jovens, dos negros, e dos brancos com nível superior, mas 94% dos eleitores disse que Hillary é a candidata com a experiência certa para o cargo, enquanto só 5% disse isso em relação a Obama. Contudo, 68% acham que ele é o candidato com mais chance de realizar mudanças.

Todos os dados correspondem à pesquisa de 5 de março do Edison/Mitofsky National Election Pool (http://www.exit-poll.net), consórcio criado em 2003 pelas maiores organizações de mídia dos EUA para centralizar a realização de pesquisas de boca de urna(PB).

11.3.08

In Havana, A Page From McCain's Past

Restaurateur Displays Story Of Interview With POW

By Manuel Roig-Franzia
Washington Post Foreign Service
Tuesday, March 11, 2008; C01


HAVANA -- At first glance, the trophy wall in the Cactus on 33rd restaurant seems to follow a standard local formula.

Framed photo of heroically posed rebel. Check.

Rusty rifle. Check.

Signed postcard from Ernesto "Che" Guevara. Check.

But there, among the routine, lies a surprise: a copy of a faded, 38-year-old article from Granma, the Cuban Communist Party newspaper. On the page is a photo of Fernando Barral, a Cuban psychologist turned restaurateur, sitting at a well-appointed coffee table in Hanoi. He is interviewing a square-jawed, sandy-haired U.S. prisoner of war. A prisoner of war named John McCain.

That a nearly four-decade-old photo of a U.S. POW would become a restaurant prop in this seaside capital stands as testament to Havana's time-warp vibe and its enduring anti-U.S. sentiments. More than just a place where vintage American cars rumble and spit smoke, Havana can feel like a city that refuses to let go of the Cold War, where spies and conspiracy theories and intrigue are as much a part of daily life as rum, cigars and the rhythms of son music.

The Granma clipping in Barral's restaurant, dated Jan. 24, 1970, recalls one of the defining periods of McCain's life, his 5 1/2 years as a prisoner of war after his Navy jet was shot down over North Vietnam. The tale of that photo and how an obscure Cuban psychologist came to interview McCain -- now a 71-year-old U.S. senator from Arizona and the presumptive Republican presidential nominee -- rouses the echoes, curiosities and suspicions of another era.

There is no doubt that the two men met in Hanoi in January 1970. Their accounts of the basic outlines of the meeting are almost identical.

McCain briefly mentions his encounter with Barral in his 1999 autobiography, "Faith of My Fathers," calling him "a Cuban propagandist, masquerading as a Spanish psychologist and moonlighting as a journalist." McCain wrote that Barral concluded he was "a psychopath," but Barral said in an interview that he never reached that conclusion. A McCain campaign spokesman did not respond to several interview requests on the subject.

The Spanish-born Barral is now 79 and retains a lispy Madrile¿o accent even though he has lived nearly a half-century in Cuba. Barral said McCain was "boastful" during their interview and "without remorse" for any civilian deaths that occurred "when he bombed Hanoi." McCain has a similar recollection, writing in his book that he responded, "No, I do not" when Barral asked if he felt remorse.

Barral kept his original notes from the interview in a bound Vietnamese notebook with yellow flowers on the cover.

He said he kept the article about the interview tucked away for decades, most recently stashing it in the small living quarters behind the six-table restaurant he runs inside a creaking mansion in the Playa neighborhood, 15 minutes from downtown Havana.

After hearing of McCain's campaign about six months ago, Barral said, he hung the clipping in his restaurant, an archetypal Cuban paladar -- a small, privately owned restaurant sanctioned by the state -- with dining tables in the living room, arched wooden doors, wrought-iron grates and tile floors. Hardly anyone noticed the clipping until a few days ago, he said, when a reporter spotted it among the Che memorabilia.

Barral, who shuffles slightly when he walks and entertains visitors with a gruff sense of humor, said his route to the 1970 encounter with McCain winds through pre-Civil War Spain, Argentina, Hungary and Cuba.

His grandfather was a Spanish anarchist and his father was a socialist killed in the Spanish Civil War. He immigrated to Argentina with his mother when he was 11. There, he said, he befriended the young Guevara, who was the same age.

Barral was later expelled from Argentina because of his communist activism, he said. He fled to Hungary, where he studied medicine. Shortly after Fidel Castro took power in Cuba in 1959, he served as interpreter for a Cuban delegation visiting Hungary.

Barral sent greetings to Guevara and soon accepted the revolutionary icon's offer of a home and job in Cuba -- a copy of the invitation is on Barral's restaurant wall. Barral -- who said he speaks Spanish, French, Hungarian and Italian, and understands English -- said that in those days "Cuba represented this fresh vision, where everything was possible."

In 1967, he won an essay contest with a piece about "The Revolutionary Attitude." He keeps the yellowed telegram announcing his victory in his archives. First prize was a 40-day trip to North Vietnam for what he called "scientific research" about the North Vietnamese and their ability to resist U.S. forces.

"In that time, North Vietnam was the tops in our eyes in Cuba," Barral said. "It was the best example of a country confronting imperialism."

The trip was delayed until 1969, he said. Once in Hanoi, he conducted field research, eventually concluding that U.S. forces were underestimating the North Vietnamese. That's when he had the idea of interviewing a U.S. POW -- to "find out," he said, "how the enemy thinks."

Cuban diplomats in North Vietnam told him to say he was a Spanish psychologist, even though he hadn't lived in Spain since he was 11. At that time he was not a Cuban citizen, though he is now, he said.

The interview lasted between 45 minutes and an hour, Barral recalled. He said the men met at the offices of Hanoi's Committee for Foreign Cultural Relations, while McCain said in his book that the interview took place in a hotel.

McCain was escorted to the interview from the infamous "Hanoi Hilton," a prison where American servicemen were tortured and lived in miserable conditions. Barral said he does not know why his North Vietnamese handlers chose the cultural center as the site for the interview. But the location did not bother Barral because he wasn't interested in the conditions of the prison, merely in finding out what "the enemy" was thinking.

Barral said he conducted a cursory medical examination and found that McCain had difficulty rotating his arms. McCain told him that he had not been subjected to "physical or moral violence," Barral noted at the time.

In his small, precise handwriting, Barral noted that cookies, candies, teacups, oranges and cigarettes were on the table. McCain, who had suffered multiple fractures after ejecting from his plane, walked in leaning on a cane, Barral said.

Quickly dispensing with the pro forma name, rank and serial number, the men talked about McCain's family, his aspirations and the shootdown of his plane, according to Barral's notes. In his book, McCain writes that Barral asked "rather innocuous questions about my life, the schools I had attended and my family."

"He was only interested in talking about himself," Barral recalled. "He had a big ego."

The son and grandson of U.S. Navy admirals, McCain lamented in the interview that "if I hadn't been shot down, I would have become an admiral at a younger age than my father," Barral's notes state. Barral said McCain boasted that he was the best pilot in the Navy and that he wanted to be an astronaut.

"He felt superior to the Vietnamese up there in his plane, with all his training," Barral recalled.

McCain did not ask questions about news from abroad, Barral said, but did ask the psychologist to get a message to his then-wife, Carol McCain, and provided her address in Orange Park, Fla.

"Tell her I'm well," Barral noted McCain saying. "Tell her I wish her all the best and that she shouldn't worry about me."

Though McCain says he did not discuss military matters with Barral, a U.S. commander in the prison later issued an order forbidding U.S. POWs to be interviewed by visitors, McCain wrote in his book. The decision was "a sound one, even though it deprived me of further opportunities to demonstrate 'my psychic equilibrium' to disapproving fraternal socialists, not to mention the extra cigarettes and coffee," McCain wrote.


Barral's interview with the son and grandson of U.S. admirals was considered a huge coup and "newsworthy," according to the 1970 Granma article. The communist party newspaper ran a close-up of McCain's face on its front page.

"I'm not sure if it was for propaganda purposes," Barral said recently of the 1970 interview. "But I accept it if I was an instrument for propaganda."

Barral's life since that flash of celebrity has unspooled like that of many Cubans. He retired with a tiny pension in the mid-1980s and said he barely had enough money to get by until opening his paladar in the mid-1990s.

His family, like those of almost all Cubans, is fractured. One of his sons, Ernesto Barral, became a successful doctor after fleeing the island, making the unsubstantiated claim that he windsurfed to Florida.

Barral said he follows U.S. politics in clippings sent to him from friends and relatives abroad, and has taken a shine to Sen. Barack Obama (D-Ill.) because he "represents change."

"I don't know if McCain would be a good president," Barral said. "And I don't care."

© 2008 The Washington Post Company

11.2.08

Democratas mais perto do poder nos EUA

Salvador, Bahia
Domingo , 10/02/2008

1º Caderno
Democratas mais perto do poder nos EUA


PATRICK BROCK | ESPECIAL PARA A TARDE

Em 1925, Monteiro Lobato publicou no jornal carioca "A Manhã" uma novela de ficção científica em que descrevia a eleição de um negro para presidente dos Estados Unidos. Nunca os americanos estiveram tão perto de concretizar a profecia do visionário de Taubaté, enquanto o Partido Republicano já discerne no horizonte uma derrota semelhante à de 1932, quando Franklin Delano Roosevelt retomou o poder para o Partido Democrata em meio aos destroços da Grande Depressão.

A eleição presidencial americana de 2008 vem motivando forte participação dos eleitores dos EUA, onde o voto é facultativo. As dificuldades enfrentadas pelo país depois de oito anos do governo de George W. Bush mobilizaram as pessoas e eletrizaram especialmente os jovens.

FAVORITOS – A vitória dos democratas já é prevista em alguns círculos, mas ainda permanece a dúvida sobre quem vai liderar o retorno ao poder. A senadora Hillary Clinton, casada com o ex-presidente Bill Clinton (1993 a 2001), é a favorita dos democratas, mas está numa disputa com Barack Obama.

No lado republicano, um cenário em rápida mutação mostra a vantagem do senador John McCain, ex-militar, e a desistência do favorito de outrora, Rudy Giuliani, ex-prefeito de Nova Iorque, conhecido pelo suposto heroísmo durante os atentados de 11 de setembro de 2001, mas prejudicado por erros estratégicos na campanha (leia mais ao lado).

Mitt Romney, milionário governador do Estado de Massachusetts, abandonou a corrida na quinta-feira, depois de gastar mais de US$ 40 milhões de sua fortuna pessoal na campanha.

CALENDÁRIO – As eleições primárias dos dois partidos vão de janeiro a julho, e terminam nas convenções nacionais (os democratas, em Denver, em agosto, e os republicanos, em St. Paul, em setembro). Nelas, os delegados escolhidos pelo voto estadual de cada partido decidem quem será o indicado para concorrer à presidência.

O voto final é na eleição nacional em 4 de novembro.

O processo pode parecer um tanto massacrante, mas permite que o eleitor analise detalhadamente os planos dos candidatos, através de incontáveis comícios e debates marcados por feroz competição. As pesquisas de opinião indicam que o pavor do terrorismo diminuiu desde 2001, abrindo espaço para as preocupações com o recente flagelo da economia, causado por uma bolha especulativa no mercado imobiliár io.

O país também está em guerra no Afeganistão e no Iraque, trágicos conflitos cuja administração incompetente azedou a opinião pública americana, e tenta estancar a maior onda de imigração desde o início do século XX. O governo calcula em 12 milhões o número de ilegais no país.

A Comissão de Orçamento do Congresso prevê déficit de US$ 250 bilhões em 2008, ante US$ 163 bilhões no ano fiscal passado. Esse cálculo não conta com o plano emergencial de injetar mais de US$ 150 bilhões em incentivos fiscais para estimular a economia, aprovado na quintafeira pelo Congresso.

PREVISÃO – O historiador político Alan Lichtman, professor da American University, em Washington, desenvolveu um método matemático que antecipou corretamente o partido vitorioso em todas as eleições presidenciais desde 1984. Com base no trabalho do geofísico russo Vladimir Keilis-Borok para prever terremotos, o sistema usa 13 chaves. Em 2008, sete chaves reprovam os republicanos e uma está prestes a virar contra: a da economia no curto prazo.

Em entrevista para A TARDE, Lichtman disse que a recessão nos EUA só pode ser considerada oficial quando for decretada pelo Bureau Nacional de Pesquisa Econômica, apartidário.

PRIMÁRIAS – O triunfo de Obama nas primárias em Iowa e Carolina do Sul lhe ajudou a concorrer em pé de igualdade com Clinton e forneceu impulso para a "superterça" em 5 de fevereiro, quando 24 estados realizaram as primárias. Nelas, enquanto John McCain emergiu como o favorito para a nominação republicana, o Partido Democrata mergulhou numa batalha feroz entre Clinton e Obama. Neste final de semana mais cinco estados realizam primárias.

Politicamente hábil e muito mais célebre do que Obama, Hillary tem o controle da máquina política do partido e também conta com a estratégica ajuda do carismático marido.

O célebre episódio das lágrimas públicas após a derrota inicial em Iowa também ajudou o público a compreendê-la melhor, suavizando a imagem de "dama de gelo". "As pessoas precisam se identificar com o candidato num nível emocional", diz Lichtman.

Obama, por outro lado, saiu escaldado de uma arenga sobre Martin Luther King que introduziu o elemento racial na campanha pela primeira vez. Um deslize de Hillary, ao afirmar numa entrevista que o reverendo precisou da ajuda de um presidente para obter as conquistas do movimento dos direitos civis, atraiu ataques mal-sucedidos de assessores de Obama. "Pela primeira vez ele foi visto como candidato de um grupo, e não alguém que pode unir o país", diz Lichtman.

❛ "As pessoas precisam se identificar com o candidato em um nível emocional" "A recessão nos EUA só pode ser considerada oficial quando for decretada pelo Bureau Nacional de Pesquisa Econômica" "Pela primeira vez, Obama foi visto como o candidato de um grupo" Alan Lichtman, historiador político ❚

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Salvador, Bahia
Domingo , 10/02/2008

1º Caderno
Candidato negro tem discurso eloqüente


Barack Hussein Obama nasceu no Havaí, filho mestiço do breve romance entre uma americana do Kansas e um estudante de intercâmbio de Quênia, que se separaram quando ele completou dois anos. Aos seis, ele foi morar com a mãe na Indonésia, onde estudou numa escola islâmica, mas voltou quatro anos depois a Honolulu para morar com os avós maternos e educar-se no sistema público americano, no qual descobriu a intolerância do racismo. Quarenta anos depois, decidiu se candidatar a presidente do país com a promessa de mudança.

A extraordinária história de Obama, que disputa com Hillary Clinton a indicação do Partido Democrata para a presidência dos Estados Unidos, levou um livro para ser contada. Sua autobiografia, best-seller mundial, foi publicada em 1995, antes da carreira política começar, quando ele ainda estudava direito na Universidade de Harvard.

Sua retórica brilhante inspirou comparações com o presidente John F. Kennedy, e ele conta com o importante apoio do senador Edward Kennedy, um dos principais líderes democratas, e da popular apresentadora de TV Oprah Winfrey.

De modo muito franco, ele contou na autobiografia que usou drogas na juventude, quando "queria esquecer todas as dúvidas sobre quem eu era", e tem inspirado uma fervorosa legião de seguidores, especialmente entre as gerações mais jovens, que cresceram na era de reparação racial obtida pela luta do movimento dos direitos civis nos anos 60.

A índole eloqüente e a história pessoal de Barack transmitem otimismo e inspiração nos comícios, mas a curta carreira no cenário nacional causa desconfiança nos eleitores americanos.

Como J.F.K., ele é jovem, e sua mensagem de mudança tem sido comparada à do presidente assassinado em 1963.

O historiador Alan Lichtman considera que Obama é candidato atraente para os eleitores em busca de uma "mudança fundamental", por ser um novato que não representa as viciadas engrenagens políticas de Washington.

Mas Obama tem sido criticado por mostrar muita exuberância verbal e pouca substância em seus planos para o país.

Depois de um curto período trabalhando em Wall Street, Obama se mudou no início dos anos 80 para Chicago, onde passou a trabalhar como organizador comunitário para famílias pobres em condominíos habitacionais públicos. Em 1993 começou a ensinar direito constitucional na Universidade de Chicago, ocupação que manteve ao ser eleito deputado estadual em 1996, mas abandonou ao chegar a senador em 2004.

Obama tem 46 anos, é casado desde 1992 com a advogada Michelle Robinson e tem duas filhas pequenas: Malia Ann e Natasha.

Ele mora no bairro Kenwood, no sul de Chicago, e freqüenta a igreja evangélica Trinity United Church of Christ. Sua mãe, Ann Dunham, era PHD em antropologia e morreu de câncer em 1995, enquanto seu pai, Barack Obama Sr., economista da etnia Luo, morreu num acidente de carro em 1982, em Nairóbi.

i Notícia integrada: Assista ao vídeo da avó de Barack Obama em sua fazenda, no Quênia, no portal A TARDE ON LINE | www.atarde.com.br
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Salvador, Bahia
Domingo , 10/02/2008

1º Caderno
Trajetória de republicanos é repleta de curiosidades


Sentados à mesa do debate televisionado, os candidatos republicanos: o pastor batista, o herói de guerra, o empresário bem-sucedido e, até quinze dias atrás, o prefeito que limpou uma cidade ingovernável. Outros já ficaram pelo caminho e os favoritos já não são os mesmos.

Mike Huckabee se parece com o presidente George W. Bush em alguns aspectos: é um sujeito simplório, pastor batista, que fala de um jeito que os americanos compreendem. Mas ele não pode contar com a ajuda dos conservadores cristãos, desmoralizados por escândalos recentes e os problemas do governo Bush.

Ex-governador do Arkansas (1996 a 2007), ele é conhecido por perder 50 kg e defender um estilo de vida mais saudável. Obteve uma vitória nas primárias de New Hampshire mas chegou em terceiro nas outras corridas, prejudicado pela falta de dinheiro para a campanha.

Em 1967, no Golfo de Tonkin, Vietnã, um míssel Zuni de um caça F-4 Phantom atingiu o avião em abastecimento do tenentecomandante John McCain.

Ele pulou do avião na última hora, mas foi aprisionado meses depois pelos vietnamitas, quando seu avião caiu em Hanói.

Ele só foi libertado em 1973 e até hoje não consegue levantar muito os braços por causa das torturas que sofreu no infame "Hanói Hilton".

Senador desde 1983, McCain se apresentou na campanha como o candidato da segurança que vai arrumar a bagunça do Iraque e proteger o país da Al-Qaeda. Antes favorável à imigração, o senador pelo Estado de Arizona baixou um pouco a voz nesse tópico e logo subiu nas pesquisas, obtendo algumas vitórias importantes nas primárias depois de a imprensa ter decretado a morte da sua campanha por falta de dinheiro.

Considerado um conservador centrista, é o favorito entre os republicanos e ganhou o apoio do governador do Estado da Califórnia, o ator austríaco Arnold Schwar zenegger.

O ex-prefeito de Nova York "Rudy" Giuliani cometeu um erro estratégico ao ignorar as primárias iniciais, confiante nas pesquisas de opinião que o identificavam como o favorito dos republicanos, e acabou abandonando a campanha em meio a uma derrota humilhante.

"Ele ficou parecendo uma nota de rodapé, saiu de evidência", diz o historiador político Alan Lichtman.

Os eleitores conservadores acabaram se assustando com a biografia do herói do horror das Torres Gêmeas: casado três vezes, ele é a favor do aborto, do controle de armas e da união entre pessoas do mesmo sexo.

Sua campanha estava sem dinheiro; alguns assessores trabalhavam de graça para economizar; um de seus aliados foi indiciado recentemente por suspeita de corrupção e o "The New York Times" revelou que Giuliani botou nas contas da prefeitura os gastos da segurança quando ia visitar a amante. E, num golpe final, ele chegou em terceiro nas primárias da Flórida na terça-feira, estado onde apostou todas as suas fichas. Acabou abandonando a campanha, e declarou apoio a John McCain.

* O jornal "The New York Times" revelou que o pré-candidato Rudolph Giuliani inseriu nas contas da prefeitura de Nova Iorque os gastos da segurança quando ia visitar a amante

4.2.08

Projeção Astral

a) Estebán Luenzia, 35 anos, operário em manutenção na
Fábrica de Azulejos Valenciana em Juan de Moro,
desprezado e humilhado pela mulher [que o traiu, rindo
e sem pensar muito, com um dos gerentes da fábrica],
ligou o forno de cozimento em 700 graus centígrados,
colocou-se dentro da sala chamuscada e sentiu o calor
crescendo, dissolvendo roupas, carnes, ossos e a sua
dor.

b)Em outubro de 2008 partiu para a órbita da Terra a
primeira espaçonave SpaceShip2, derivada do modelo
ganhador do prêmio Ansari X. Richard Branson, dono da
Virgin Galactic e capitalista multifuncional, assistiu
emocionado à ascensão rápida de seu foguete. Morgan
Freeman, Paris Hilton, Madonna e outras celebridades
maravilharam-se com o planeta que encolhia até o
oitavo minuto de vôo, quando o motor de combustível
sólido explodiu no limiar da atmosfera lançando uma
chuva de cinzas estelares no Oceano Pacífico. Comoção
mundial e especiais na TV.

c) Hoje eu alcancei a imortalidade. Há uma semana, ao
anoitecer, fui atacado por um enxame de muriçocas
enquanto arrancava ervas daninhas em meu sítio. Como
não coçou, continuei a trabalhar e fui mordido
centenas de vezes. No outro dia eu acordei
completamente inchado. Fiquei de cama por sete noites,
tão doente que não comia, bebia ou ia ao banheiro, sem
forças até para tirar minha própria temperatura.
Quando consegui, me espantei com a palidez funérea
no espelho do banheiro.

Voltei para a cama e comecei a sentir o corpo leve
com o surgimento de minha alma imortal em forma
de uma planta gigante que surgiu num
canto do quarto e tomou conta de tudo
com suas folhas compridas, meio
coníferas e meio tropicais. Tudo escureceu e
surgiu um portal. Eu o atravessei e vi o
Messias, mas outro espírito brilhante surgiu me
acusando: como eu ousava ir até ali, depois de tudo que
eu tinha feito? Ele colocou uma pilha de côco na minha
frente. Resisti, conversando telepaticamente com o
Messias pelas próximas sete horas. Acordei no outro
dia completamente curado e com a lembrança das
suas palavras finais: Você atravessou o portal
sem medo, então pode voltar e retomar a sua alma.

Antônio Barbosa

1.2.08

A possibilidade de uma ilha

Quem conclui "A possibilidade de uma ilha" sente uma profunda sensação de deslocamento. Vestir de erotismo a filosofia dura de Houllebcq ajuda a passar pela calosidade repugnante de seu choque gratuito. Diferentemente da ominosidade cabreira do fim de "Particulas Elementares", o último livro de Michel detalha minunciosamente a destruição da raça humana, sua evolução para algo mais higiênico e imortal. O nervosismo priápico mascara a tristeza de tudo, é um grito por algo que se perdeu. Abandonado pelos pais ripongas, este ex-programador prepara neste um caldo agri-doce mais profundo, mas também mais chato, menos cômico que "Plataforma", por exemplo. Mas ainda veloz. Não sou dos mais rápidos, mas o terminei em quatro dias de longas viagens pelo metrô e algumass espiadas rápidas antes de dormir.

Definitivamente, "Plataforma" é o melhor que já li. Falta "Extensão do domínio da luta".