10.12.08

Windows, viagens, minha rua

Sou cliente da Microsoft há 12 anos e eles ainda não conseguiram consertar o Windows. Tinha um negócio chamado XP que até funcionava direitinho, mas fuderam tudo com o Vista. Será que alguém pode me explicar por que o IExplorer sempre dá uma travadinha? Tudo bem, os caras evoluíram um pouco. Raramente tenho que reiniciar o computador.

A partir do dia 26 de dezembro começa o mesmo trajeto imigratório reverso, em busca de oceanos mais quentes e luz tropical. Dessa vez seguiremos pelo famigerado Newark Liberty, em New Jersey. O vivente pode tentar pegar um ônibus ou torrar uma baba indo de táxi, mas o bom mesmo é seguir até a estação 34 Penn Station do metrô e pegar um trem da estatal NJ Transit que passa no aeroporto. Coisa de uns vinte minutos no máximo. Eu mesmo fiz muito esse trajeto, vindo de Jersey, nas primeiras semanas em que morei aqui no Tri-State - NJ, NY e Connecticut. O sistema até que funcionava bem, o problema era o preço. Eu tinha de pegar o ônibus gratuito do hotel até o aeroporto, comprar a passagem que custava uns 7 dólares e ir até a Penn Station de Newark (de confundir a cabeça de qualquer vivente). Descontada a falta de criatividade para nomear estações, ainda sobrava um tempinho no metrô de Jersey, o PATH.

Não consegui me livrar do PATH. Eu moro em Nova York, no Queens, e trabalho em outro estado, New Jersey. Existe todo um sistema de transporte coletivo que facilita consideravelmente o cotidiano de uma galera. Mas todo esse deslocamento é cansativo pra burro. Estou há dois anos nessa vida. Pra relaxar, portanto, vou passar em Salvador pra tomar uns drinques, graças às últimas milhas antes da Grande Recessão.




















Meu caminho de casa num dia normal.

Minha rua se chama Steinway por causa do célebre fabricante de pianos. Se caminhares uns dois km mais ou menos até o fim dela encontrará a fábrica. A região ao redor dela foi uma das primeiras vilas do Queens, juntamente com Astoria, nomeada assim em homenagem ao milionário John Jacob Astor, sujeito que nunca pisou por estas bandas mas reza a lenda podia enxergar a vila de sua mansão na Ilha de Manhattan. Hoje em dia a Steinway Street é um centro de comércio importante em Astoria.


Estação do metrô da Rua Steinway.

Naturalmente que a associação de comerciantes locais está preocupada com a crise de confiança do consumidor e resolveu adotar uma medida extraordinária para tentar movimentar as vendas: instalaram um alto-falante na esquina que toca Frank Sinatra e outros sons gordurosos de mafioso durante a maior parte do dia, logo em frente aos empresários dos espetinhos e sua fauna parasítica de pombos famintos.


Repare na quantidade de lojas no meu quarteirão.
Se gostasse de fazer compras, estaria no paraíso.


Alguns imóveis da minha rua já está em crise há um tempão, a despeito da pujança registrada cima pelo New York Times no início de 2007. Um exemplo dessa urbe decaída de braços dados com grandes redes varejistas é o Hibachi Grill do outro da rua, fechado desde que mudei, em fevereiro de 2007. Agora outras lojas mais fudidas fecharam ou "pegaram fogo".

Eu moro num prédio de dois andares em que funciona uma loja de roupas femininas chamada ENA. Quatro apartamentos, cada um de um tamanho diferente, dois virados para a Steinway e dois para o fundo, com uma quadra de basquete, um pequeno parque e as torres da cidade distante no horizonte. Dizem que a minha quadra se tornou uma espécie de shopping ao céu aberto mas eu não vejo nada disso, só escuto mesmo as sirenes dos bombeiros ou da polícia. Quando o papa Bento XVI veio a Nova York o helicóptero da polícia ficava voando em cima do meu prédio todo o dia às duas da manhã, a vigiar os árabes duas quadras ao norte.

O movimento na Steinway é intenso mas, como moro do outro lado, além da trilha sonora cotidiana dos serviços de emergência só ouço mesmo o barulho da gurizada xingando nas partidas de basquete. Ou então criança chorando, etc. Posso ver os fundos de outro prédio, cheio de carrinhos de comida abandonados. Uma família asiática mora no último andar. Durante o verão, eles se espremem numa pequena plataforma externa para jantar ao relento. Quando o clima começa a esfriar passamos a ouvir gritos abafados pelo gorgulhar do aquecedor, a mulher se enfureceu com alguma coisa. Tentei imaginar se eles também nos viam de vez em quando, se prestavam atenção quando gritamos casualmente nos dias de limpeza, se também fornecemos um cineminha pra quebrar o tédio. Quem sabe se abrirmos as cortinas na hora da transa o casal do outro lado pare de brigar e decida copular também.

O dono do meu prédio é um grego de uns 50 anos, mau hálito, calvo e de temperamento explosivo. Nos respeitamos e esta semana ele assinou uma carta para as autoridades americanas de imigração declarando que eu e minha mulher somos mesmo casados. Ultimamente ele parece estar feliz apenas em receber o aluguel. Como não há infestações no prédio, eu deixo passar o aspecto escabroso da escada.

Tem um bom amigo meu que gosta de chamar meu apartamento de bunker, porque não temos janelas para fora na sala, apenas para a saída de ar. Durante o inverno a sala vira um útero com wireless e ventilador bom pra ler, escrever, tomar café e pensar na vida. Ainda não cheguei a nenhuma conclusão.

2 comentários:

Anônimo disse...

"...um alto-falante na esquina que toca Frank Sinatra e outros sons gordurosos de mafioso durante a maior parte do dia..."
O cidadão cruza o novo mundo para conviver com estas estratégias de venda Baixa do Sapateiro estaile.
Enquanto isso, em Costa do Sauípe, chefes de estado populistas se reunem para atacar, que novidade, o imperialismo ianque e saudar Raul, o irmão mais vivo de fidel.

Palavras Cruzadas disse...

É, a esquerda ultrapassada se regojiza na própria lama. Lula não poderia ser mais condescendente do que sorrir ao lado de Chávez e seus asseclas. Transformaram Morales em herói, eu mesmo fiquei feliz com sua chegada ao poder. Mas fomentar uma guerra civil, uma luta de classes contra-produtiva, onde vai parar isso?